Turquia X Síria: os próximos capítulos da crise diplomática
Para analistas ouvidos pelo site de VEJA, queda de Assad, tida como cenário mais provável para a Síria, não traz respostas otimistas para o futuro do país
Pessoas rezam sobre as
ruínas de prédio bombardeado pela Força Aérea Síria na cidade de Maaret
al-Numan, no noroeste do país, região sob controle do exército rebelde
Há duas semanas, a Síria lançou um ataque
de morteiros ao povoado turco de Akcakale, que matou duas mulheres
e três crianças da mesma família. O motivo do bombardeio é incerto: pode ter
sido um erro de cálculo das forças do ditador Bashar Assad ou mesmo uma
iniciativa dos próprios rebeldes sírios para provocar os turcos e trazê-los para
dentro da guerra civil. Mesmo com o pedido de desculpas sírio, especialistas
consultados pelo site de VEJA consideram pouco provável que o governo sírio
tenha atacado a Turquia propositalmente. “A Síria não precisa de um front
externo além da sua guerra civil. A não ser que estivesse tentando mandar um
recado, de que a situação pode sair do controle e prejudicar interesses vitais
da Turquia caso ela continue interferindo nos assuntos sírios. Mas seria uma
aposta arriscada”, diz Nasser.
Do lado turco, ao responder à altura, o governo pode estar preparando o terreno para uma possível intervenção pela Otan. Por enquanto, entretanto, parece que nenhum país pretende comprar essa briga ao lado da Turquia. Ancara deve continuar apostando em pequenas incursões a pontos estratégicos da Síria e no apoio logístico e financeiro à oposição e treinamento dos rebeldes, para que eles próprios derrubem o ditador. Uma guerra declarada é improvável, a não ser que Assad responda à altura, e o cenário se torne mais robusto. Mas essa seria uma decisão complicada para a Síria, que dificilmente sobreviveria a uma guerra com a Turquia. “Num confronto direto, a Turquia tem clara superioridade militar, mas qualquer conflito entre os dois países não poderá ficar confinado e toda a região correrá um grande risco”, afirma Nasser.
Do lado turco, ao responder à altura, o governo pode estar preparando o terreno para uma possível intervenção pela Otan. Por enquanto, entretanto, parece que nenhum país pretende comprar essa briga ao lado da Turquia. Ancara deve continuar apostando em pequenas incursões a pontos estratégicos da Síria e no apoio logístico e financeiro à oposição e treinamento dos rebeldes, para que eles próprios derrubem o ditador. Uma guerra declarada é improvável, a não ser que Assad responda à altura, e o cenário se torne mais robusto. Mas essa seria uma decisão complicada para a Síria, que dificilmente sobreviveria a uma guerra com a Turquia. “Num confronto direto, a Turquia tem clara superioridade militar, mas qualquer conflito entre os dois países não poderá ficar confinado e toda a região correrá um grande risco”, afirma Nasser.
Leia
também: As ambições escusas da Turquia, entre Ocidente e
Oriente
Prospectivas - As forças de Assad, que são em si bastante limitadas, estão muito comprometidas com a guerra civil, e qualquer reorientação para um conflito externo tornaria sua capacidade militar ainda mais reduzida. No entanto, quanto mais tempo dura o conflito interno na Síria, maiores as chances de a guerra extrapolar o seu território. E a atuação turca na fronteira pode servir para incentivar uma ajuda crucial dos Estados Unidos - militar, política e humanitária - aos opositores sírios. “Num primeiro momento, intervir no território sírio - que é um verdadeiro barril de pólvora, devido às variações étnicas e religiosas - seria algo muito delicado. Mas, a partir do momento em que o conflito toma proporções maiores, envolvendo outros países, a comunidade internacional pode mudar de ideia e oferecer mais suporte aos opositores sírios e aos turcos”, diz Cukier. Por enquanto, o cenário mais provável é o sangramento contínuo e gradual da sociedade síria.
O regime sírio tende a tomar mais cuidado para evitar transtornos nas fronteiras, inclusive com outros países além da Turquia. “A Jordânia está particularmente ameaçada, com muitos refugiados entrando todos os dias. O número de sírios vivendo em países vizinhos triplicou nas últimas três semanas, são cerca de 335.000 agora, mas podem chegar a 700.000 até o fim deste ano.” diz Elizabeth.
Outro grande temor está relacionado à segurança, ameaçada com a possível entrada de armas para os curdos na Síria. A queda de Bashar Assad, tida como cenário mais provável para a Síria, não traz respostas muito otimistas para o futuro do país. O vácuo de poder abriria espaço mesmo para os terroristas islâmicos da Al Qaeda infiltrados na oposição, o que ameaçaria a estabilidade dos países vizinhos e da região como um todo. “Na Síria se está jogando um jogo envolvendo interesses vitais de muitos atores regionais e alguns interesses muito caros a algumas potências. Se a balança pender muito fortemente para um lado, é possível que assistamos a uma conflagração muito violenta e de grandes ramificações”, pontua Nasser.
Nesse contexto, a melhor solução para a Turquia é impor um governo liderado pela maioria sunita na Síria e que restrinja a autonomia dos curdos e outras minorias no país. Dessa forma, Erdogan, com o apoio do Ocidente, conseguiria ter um amplo controle do país vizinho.
Rússia - Um empecilho para esse projeto seria o rompimento das relações com a Rússia, em consequência do recente incidente diplomático em que Ancara interceptou um avião que saiu de Moscou em direção a Damasco. Até agora, Turquia e Rússia parecem tentar evitar o assunto e manter as relações amenas. “A Rússia não tem interesse em brigar com Turquia, ou vice-versa. Ainda mais por uma questão que pode facilmente ser resolvida nos bastidores”, afirma Cukier. Um possível desgaste com Moscou pode atrapalhar a tentativa de Erdogan de isolar a Síria e saciar suas ganas de poder.
Prospectivas - As forças de Assad, que são em si bastante limitadas, estão muito comprometidas com a guerra civil, e qualquer reorientação para um conflito externo tornaria sua capacidade militar ainda mais reduzida. No entanto, quanto mais tempo dura o conflito interno na Síria, maiores as chances de a guerra extrapolar o seu território. E a atuação turca na fronteira pode servir para incentivar uma ajuda crucial dos Estados Unidos - militar, política e humanitária - aos opositores sírios. “Num primeiro momento, intervir no território sírio - que é um verdadeiro barril de pólvora, devido às variações étnicas e religiosas - seria algo muito delicado. Mas, a partir do momento em que o conflito toma proporções maiores, envolvendo outros países, a comunidade internacional pode mudar de ideia e oferecer mais suporte aos opositores sírios e aos turcos”, diz Cukier. Por enquanto, o cenário mais provável é o sangramento contínuo e gradual da sociedade síria.
O regime sírio tende a tomar mais cuidado para evitar transtornos nas fronteiras, inclusive com outros países além da Turquia. “A Jordânia está particularmente ameaçada, com muitos refugiados entrando todos os dias. O número de sírios vivendo em países vizinhos triplicou nas últimas três semanas, são cerca de 335.000 agora, mas podem chegar a 700.000 até o fim deste ano.” diz Elizabeth.
Outro grande temor está relacionado à segurança, ameaçada com a possível entrada de armas para os curdos na Síria. A queda de Bashar Assad, tida como cenário mais provável para a Síria, não traz respostas muito otimistas para o futuro do país. O vácuo de poder abriria espaço mesmo para os terroristas islâmicos da Al Qaeda infiltrados na oposição, o que ameaçaria a estabilidade dos países vizinhos e da região como um todo. “Na Síria se está jogando um jogo envolvendo interesses vitais de muitos atores regionais e alguns interesses muito caros a algumas potências. Se a balança pender muito fortemente para um lado, é possível que assistamos a uma conflagração muito violenta e de grandes ramificações”, pontua Nasser.
Nesse contexto, a melhor solução para a Turquia é impor um governo liderado pela maioria sunita na Síria e que restrinja a autonomia dos curdos e outras minorias no país. Dessa forma, Erdogan, com o apoio do Ocidente, conseguiria ter um amplo controle do país vizinho.
Rússia - Um empecilho para esse projeto seria o rompimento das relações com a Rússia, em consequência do recente incidente diplomático em que Ancara interceptou um avião que saiu de Moscou em direção a Damasco. Até agora, Turquia e Rússia parecem tentar evitar o assunto e manter as relações amenas. “A Rússia não tem interesse em brigar com Turquia, ou vice-versa. Ainda mais por uma questão que pode facilmente ser resolvida nos bastidores”, afirma Cukier. Um possível desgaste com Moscou pode atrapalhar a tentativa de Erdogan de isolar a Síria e saciar suas ganas de poder.
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