Em meio à confusão, o Brasil coloca a sua imagem à prova
As greves no transporte reativaram o noticiário negativo sobre o país-sede no exterior. Mas os clichês sobre os perigos de visitar o Brasil vão se confirmar?
Para tentar atrair mais turistas, a Embratur bancou uma excursão luxuosa dos repórteres pelos melhores hotéis e restaurantes de algumas das capitais envolvidas no evento. Na saída de um restaurante no Rio, o grupo foi assaltado na rua
Na semana da abertura da Copa, a greve no metrô de São Paulo, que receberá a partida inaugural, na quinta, e a ameaça de paralisação do mesmo serviço no Rio de Janeiro, o palco da decisão, reativaram o noticiário negativo em torno do país-sede. Desde a Copa das Confederações, ocorrida simultaneamente à maior onda de protestos de rua já vista no país, o foco dos jornais, revistas, TVs, rádios e sites estrangeiros tinha se voltado quase que totalmente aos problemas dos anfitriões do evento. Nas últimas semanas, a expectativa de uma Copa extraordinária dentro de campo, com muitas seleções fortes e muitos craques de alto nível, havia começado a concentrar as atenções. A poucos dias da estreia, contudo, os temores dos estrangeiros que não conhecem o país se renovaram. Na segunda-feira, a manchete do site do jornal mais famoso do planeta destacava justamente as dificuldades enfrentadas pelo Brasil antes da abertura – o New York Times lembrava tanto das falhas na organização e dos problemas estruturais das cidades-sede como da boa acolhida aos visitantes em outros grandes eventos no passado. No mês passado, a revista alemã Der Spiegel publicou uma reportagem de capa com o título "Morte e jogos", enumerando problemas como os protestos violentos, os atrasos nas obras e a reprovação popular à festa. E essas foram só duas das publicações de prestígio que trataram das dificuldades do país-sede.
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Até agora, já chegaram ao país as seleções participantes e um contingente razoável de turistas, dirigentes, jornalistas, funcionários dos patrocinadores do evento e outros envolvidos na realização da Copa. Acredita-se que o número de estrangeiros no país para o evento deverá disparar a partir desta terça, quando começa o Congresso da Fifa, no Hotel Transamérica, em São Paulo. Por enquanto, não houve problemas significativos: os integrantes das seleções classificadas têm usado as redes sociais para mostrar momentos de descontração no país da Copa e não surgiram críticas em público à estrutura encontrada por aqui. Eventualmente, no entanto, as dificuldades aparecerão – e o governo, que apostou alto no evento, projetando a Copa como uma grande propaganda pré-eleição, torce para que as coisas não saiam dos trilhos. No caso da greve de São Paulo, tão noticiada no exterior às vésperas da abertura, a situação é inusitada. A paralisação no dia de Brasil x Croácia, ainda indefinida, pode manchar a imagem da abertura e fazer com que o evento já comece num tom negativo – e esse movimento é apoiado pela CUT, central sindical com fortes laços com o PT e integrantes do governo, que se divide entre fazer barulho num Estado que governado por um opositor, Geraldo Alckmin, e poupar o governo federal desse desgaste. Se ficarem com a primeira opção, é bom que os grevistas lembrem que, de acordo com as pesquisas de opinião, os principais questionamentos sobre a Copa são direcionados ao Planalto.
Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff recebeu Joseph Blatter, chefão da Fifa, e posou para fotos com a taça, diante de um enorme painel com o slogan "Copa das Copas", adotado pelos marqueteiros do governo para tentar promover os avanços proporcionados pela realização do evento. Dias depois, porém, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo – que passou os últimos anos rebatendo com veemência qualquer crítica ao país-sede –, mudou um pouco de tom. Em entrevista coletiva concedida ao lado do próprio Blatter, ele evitou prometer uma Copa irretocável e um Brasil imune a todos os problemas. Os discursos ufanistas do ministro deram lugar a uma postura mais cautelosa (e, diga-se, realista): "Nós sabemos das nossas dificuldades", afirmou. "Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para propiciar aos visitantes segurança e tranquilidade. Que eles levem daqui a lembrança de um país que luta para corrigir suas deficiências." Talvez o caso que ilustre melhor a situação do país diante dos visitantes da Copa seja o de um grupo de jornalistas estrangeiros convidados pelo governo para conhecer as cidades-sede. Para tentar atrair mais turistas, a Embratur bancou uma excursão luxuosa dos repórteres pelos melhores hotéis e restaurantes de algumas das capitais envolvidas no evento. Na saída de um restaurante no Rio, o grupo foi assaltado na rua. O episódio, é claro, foi registrado nas reportagens publicadas pelos correspondentes em seus países – junto de relatos bastante precisos sobre os riscos e os atrativos brasileiros, os incômodos e os prazeres experimentados na jornada. Assim como ocorreu no Mundial como um todo, o governo gastou muito dinheiro e espera se beneficiar do evento, mas os visitantes vão tirar suas próprias conclusões sobre o país da Copa – provavelmente não tão ruins quanto previam as reportagens mais alarmistas, mas também não tão idílicas quanto pretendia o
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