Campanha eleitoral na tomada: O discurso infeliz de Dilma e a política em tempos de surrealismo explícito
Não adianta! Eles têm lá as suas dissensões, mas também
têm a sua natureza, como nesses filmes B de vampiros. Uns não gostam dos outros,
mas todos se alimentam da mesma coisa. Assim, Lula tenta surrupiar — e vai
surrupiar — uma fatia do governo, Dilma fica brava, os dois trocam palavras
ríspidas, mas são quem são, e isso os une. Foi o que me ocorreu ao ver a
presidente na TV a anunciar a redução da tarifa de energia. Não estava lá a
governante preocupada; não estava lá uma aspirante a estadista. Nada
disso!
Quem falava era a candidata à reeleição em 2014. Até aí,
vá lá. É a sina dos políticos nas democracias; disputar eleições é parte do
jogo. O que incomodou foi outra coisa: por que o tom de desafio e, às vezes, de
certo rancor? Porque, no petismo — seja o lulista ou o dilmista —, mais
importante do que vencer, é a sensação de que o adversário perdeu. No dia em que
poderia anunciar, como costumam fazer governantes, a vitória de todos (ainda que
não seja verdade), Dilma preferiu chamar a atenção para a suposta derrota de
alguns. Em democracias mais corriqueiras do que a nossa, esse tipo de abordagem
costuma ter o devido troco da oposição — além de ser mal recebido pela imprensa.
Em Banânia, nem uma coisa nem outra. Não faltará quem diga que ela foi enérgica
e sagaz.
Dilma anunciou uma redução da
tarifa para o consumo doméstico e das empresas um pouco superior àquilo que se
esperava (ver post de ontem na home). E partiu para o confronto. Atacou
os “alarmistas” — referia-se àqueles que chamaram a atenção do país para o risco
de faltar energia; fez pouco caso dos que são “sempre do contra” e “estão
ficando para trás” — qualquer um que, exercendo o sagrado direito de crítica
garantido pelas democracias, ousa discordar do governo; e anunciou o seu
triunfo: “Surpreende que, desde o mês passado,
algumas pessoas, por precipitação, desinformação ou algum outro motivo, tenham
feito previsões sem fundamento, quando os níveis dos reservatórios baixaram, e
as térmicas foram normalmente acionadas. Como era de se esperar, essas previsões
fracassaram.”
Vamos colocar as coisas no seu devido lugar. Já chamei a
atenção aqui para o fato e volto a fazê-lo: ninguém anunciou que haveria apagão
no país depois de amanhã. O que os especialistas do setor fizeram — e cumpriram,
assim, até um dever cívico — foi chamar a atenção para o baixo nível dos
reservatórios e para o fato de que o Brasil é hoje excessivamente dependente das
chuvas para garantir o fornecimento de energia. Mesmo com o crescimento mixuruca
do país — 1% em 2012 (hoje um pouco mais, mas não muito) —, todas as térmicas
tiveram de ser acionadas. A elevação do risco de crise fez com que as atenções
de voltassem para o setor. E o Brasil se deparou com usinas velhas, linhas de
transmissão capengas, falta de investimento e planejamento tortuoso.
Nada disso é mera invenção dos adversários de Dilma
Rousseff. Tudo foi absolutamente comprovado. Esse discurso do desafio, do queixo
levantado, do “cospe aqui se for macho” é pura manifestação de arrogância e, no
limite, tolice. Também é falsa a afirmação de que se previu que o governo não
baixaria as tarifas conforme o prometido. Dilma está imputando aos adversários o
que estes não disseram para que possa proclamar a derrota destes. É discurso
puramente eleitoral — e da pior categoria.
Não faltou também uma
referência aos governos de São Paulo, Minas e Paraná — todos eles tucanos. Cesp,
Cemig e Copel não aceitaram o pacote imposto pelo governo, que implicaria perdas
monstruosas para essas empresas. Só na Cesp, o espeto poderia chegar a R$ 7
bilhões. Não por acaso, as ações das empresas do setor elétrico despencaram. A
presidente deu um pé no traseiro dos fatos e mandou brasa: “Aproveito para esclarecer que os cidadãos atendidos
pelas concessionárias que não aderiram ao nosso esforço terão ainda assim sua
conta de luz reduzida como todos os brasileiros (….) Espero que, em breve, até
mesmo aqueles que foram contrários à redução da tarifa venham a concordar com o
que estou dizendo”.
Bem, um discurso feito para provocar acaba mergulhando na
mentira, ainda que a intenção fosse outra. Diga aí, presidente: quem era
“contrário à redução da tarifa”? É escarnecer dos fatos e investir na ignorância
alheia fazer uma afirmação como essa. A decisão de São Paulo, Minas e Paraná de
impedir que suas empresas quebrasssem não significa ser “contra” a redução.
Trata-se de uma mistificação grosseira, daquelas que não deveriam ser ditas nem
mesmo em palanque porque mentirosas. O propósito estava bem claro: “Estamos vendo como erraram os que
diziam meses atrás que não iríamos conseguir baixar os juros nem o custo da
energia e que tentavam amedrontar o nosso povo, entre outras coisas, com a queda
do emprego e a perda do poder de compra do salário”.
Indago de novo: onde é que estão essas previsões
pessimistas todas? Por mais que eu procure, não as encontro. O petismo vive um
estágio curioso: como não tem de enfrentar oposição e como só sabe jogar no
ataque, fantasia as críticas que não recebe para poder manter elevada a moral da
tropa, que precisa estar em guerra.
De resto, não custa observar: ainda que a energia
elétrica seja um custo importante da economia, supor que a redução da tarifa
será uma alavanca efetiva do crescimento econômico, especialmente da indústria,
é, com a devida vênia, mera conversa mole de lobistas do setor. Energia cara
pode, sim, ser um constrangimento e coisa e tal, mas não há um só estudo
relevante — tentei encontrar nesta quarta-feira e fiz algumas consultas —
indicando que a medida terá um impacto efetivo no crescimento. As dificuldades
que o setor produtivo enfrenta hoje são de outra natureza. Também já se achou
que a dinheirama do BNDES a juros subsidiados seria o toque de Midas da
economia… O país cresceu 1% em 2012 com Luciano Coutinho tentando financiar até
carrinho de pipoca…
Eis, leitor, uma daquelas conjunções ruins, mas que se
mostram inexoráveis — as gerações futuras se perguntarão: “Como é que eles
conseguiram fazer tanta besteira?” A que me refiro? O que se viu ontem na TV foi
uma presidente orgulhosa dos seus insucessos, com um discurso duro e triunfante
do alto daquele 1% de crescimento, a anunciar que todos os seus críticos são uns
bananas, que eles não sabem de nada e que os feitos do governo estão aos olhos
de todos.
Como não há, no cenário político, uma voz de peso que se
levante e diga que a meia da rainha está desfiada (esse negócio de “nu” é para
rei…), vive-se uma situação realmente singular: Dilma se jacta daquilo que não
fez e desafia os adversários a provar o contrário. E os adversários… não provam.
Entenderam?
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