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O Itamaraty a serviço da Odebrecht

Documentos mostram empenho do governo Lula em obter negócios para a empreiteira no exterior – com atuação do próprio presidente

Odebrecht
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Documentos liberados nesta terça-feira pelo Ministério das Relações Exteriores revelam o empenho da diplomacia brasileira para prospectar negócios para as grandes construtoras no exterior - em especial, a Odebrecht. O material inclui comunicações internas durante os dois mandatos do governo Lula, período no qual a política externa brasileira intensificou o papel de intermediador de contratos para grandes empresas brasileiras, sobretudo em países africanos, árabes e sul-americanos.
Nos papéis, há centenas de menções à Odebrecht. Alguns são representativos da relação entre diplomatas e executivos das construtoras. O atual secretário-geral do Itamaraty, Sérgio Danese, era embaixador na Argélia quando foi procurado por uma delegação da Odebrecht, interessada em investir no país africano. Em um despacho enviado ao Itamaraty em abril de 2006, ele disse ter aconselhado os executivos e prometido fazer o governo argelino perceber as "vantagens políticas" de contratar a companhia.
"Tão logo identificados os projetos que poderiam vir a ser desenvolvidos pela Odebrecht, garanti a meus interlocutores que a embaixada, seguindo a linha de orientação dada pelo senhor presidente da República e por vossa excelência, estaria pronta a fazer ver às autoridades argelinas as vantagens políticas de contar com empresas brasileiras, da qualidade da Odebrecht, entre suas parceiras no projeto de desenvolvimento do país", disse ele, em comunicação endereçada ao então ministro Celso Amorim.
Mesmo antes disso, a empreiteira já havia sido beneficiada pelo auxílio providencial do governo brasileiro, quando se envolveu em um impasse com a IMPSA, uma empresa argentina. As duas companhias deveriam participar da obra de uma hidrelétrica no Equador. Eis o resumo do memorando dirigido pelo embaixador então brasileiro no Equador, Sérgio Abreu e Lima Sobinho, a Celso Amorim: "Intervenção de altas autoridades foi fundamental para retirar empresa argentina IMPSA de postura intransigente e contrária à proposta da Odebrecht e para possibilitar assinatura de 'Memorando de Intenção de Associação' sobre a construção da Hidrelétrica de Toachi-Pilatón. Odebrecht satisfeita com resultado das gestões"
Em outro trecho do mesmo documento, o embaixador celebra o empenho de Lula e da presidente argentina, Cristina Kirchner, no episódio: "Estou seguro de que a flexibilização na postura da IMPSA e a aceitação, por parte da empresa argentina, da proposta de texto elaborado pela Odebrecht não teriam sido possíveis sem a intervenção decidida de Vossa Excelência e dos Presidentes Lula e Kirchner".
Outro personagem citado nos documentos é José Dirceu, que foi ministro da Casa Civil entre 2003 e 2005. A embaixadora Vitoria Cleaver relata um encontro entre Luiz Dulci, então secretário-geral da Presidência, e o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega."O presidente Ortega (...) disse que representantes do Grupo Odebrecht tinham ontem encontro marcado com o novo ministro da Energia, Emilio Rapaccioli, para verificar a possibilidade de investimentos na área das pequenas hidrelétricas, como resultado da visita que fizeram à Manágua, no ano passado, a pedido do Ministro José Dirceu".
A Odebrecht também propôs ao governo de El Salvador modificações no projeto de uma hidrelétrica para posicioná-la sobre a fronteira com Honduras e construir uma usina binacional, nos moldes de Itaipu. O assunto surgiu em maio de 2009. O embaixador brasileiro Brian Nelle, sugeriu, em seguida, um encontro entre os chanceleres de Brasil, El Salvador e Honduras para tratar da proposta da empreiteira.
O material liberado pelo Itamaraty não é completo: parte dos documentos que citam a Odebrecht foram classificados como secretos e não estão disponíveis pela lei de acesso á informação. Mas as peças ajudam a compor um retrato da parceria, muitas vezes de caráter nebuloso, entre empreiteiras e a diplomacia brasileira.

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