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Empresa asiática Keppel Fels diz que vai ‘rever contrato’ com operador do petrolão

Companhia de Cingapura nega ter conhecimento sobre pagamento de propina em contratos da Petrobras e afirma que Zwi Skornicki, seu representante no Brasil, assinou uma cláusula anticorrupção com o conglomerado asiático

 
Plataforma da Petrobras na Bacia de Campos, Rio de Janeiro
Plataforma da Petrobras na Bacia de Campos, Rio de Janeiro (/EFE/
A empresa de engenharia naval de Cingapura Keppel Fels, investigada por pagamento de propina em contratos com a Petrobras na nova fase da Operação Lava Jato, está revendo seu contrato com Zwi Skornicki, representante comercial da companhia no Brasil desde a década de 1990 por meio da Eagle do Brasil. Segundo o documento do acordo de delação premiada de Pedro Barusco, ex-gerente-executivo da Petrobras e ex-diretor da Sete Brasil, Skornicki teria fornecido quase 40 milhões de dólares para abastecer o caixa do PT entre 2003 e 2013.
“A Keppel Fels está fazendo uma revisão detalhada na operação com a Eagle do Brasil e Zwi Skornicki. O acordo da empresa com a Eagle do Brasil categoricamente determina que tanto a empresa quanto Zwi Skornicki não devem fazer, direta ou indiretamente, qualquer pagamento inapropriado de dinheiro ou qualquer objeto de valor a qualquer pessoa que tenha ligação com o contrato”, afirmou a companhia, que é dona do estaleiro BrasFELS. Depois que o nome do conglomerado asiático foi envolvido no petrolão, na última quinta-feira, as ações da empresa recuaram 2,8% na Bolsa de Valores de Cingapura.
Skornicki é um engenheiro conceituado no setor de óleo e gás, mas que tem sua carreira colocada em xeque se as denúncias feitas por Barusco se mostrarem fundamentadas. A força-tarefa da Polícia Federal e do Ministério Público se encarrega de tentar rastrear o dinheiro sujo em bancos na Suíça. Segundo o depoimento de Barusco, ao deixar a diretoria de Serviços da Petrobras, em 2013, Renato Duque fez um “acerto” com Skornicki para o recebimento de propinas atrasadas. O montante pago a Duque alcançou 12 milhões de dólares apenas naquele ano, que teriam sido transferidos de uma conta do operador no banco suíço Delta. Skornicki também teria dado 2 milhões de dólares a Barusco.
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Consta da delação de Barusco que a Petrobras firmou seis grandes contratos com a Keppel Fels nas áreas de exploração e produção de petróleo entre 2003 e 2009, no valor aproximado de 4 bilhões de dólares. Tabelas apreendidas pela Polícia Federal nos computadores de Barusco detalham o pagamento de propina de 1% sobre cada um dos seis contratos, totalizando 39,5 milhões de dólares. Tais depósitos eram atribuídos por Barusco a Skornicki. Desse valor, 50% teriam ido para os cofres do PT, por meio do tesoureiro João Vaccari Neto, e 50% para as contas dos diretores envolvidos no esquema. Nenhum dos seis contratos citados por Barusco estão listados na página de transparência da Petrobras.
Skornicki é um velho conhecido da Petrobras. Trabalhou na empresa nos idos dos anos 1970 antes de ir para a Odebrecht para ajudar a montar a área de exploração de petróleo da empresa. Foi diretor-superintendente da Odebrecht Perfurações Limitada (OPL), braço da empreiteira para atuar no setor petrolífero. Deixou a companhia para montar, no início dos anos 1990, uma consultoria própria, a Eagle do Brasil, por meio da qual passou a representar a Keppel Fels. Apesar de a empresa asiática ter executivos de Cingapura comandando a subsidiária brasileira a partir de 2000 — inclusive diretores de operações e relações institucionais, por exemplo — Skornicki se manteve desde então no cargo de “representante comercial”.
Uma reportagem publicada na revista institucional da empresa de Cingapura em 2006 cita que o ímpeto em ampliar as operações no Brasil se deu nos anos 1990, quando Skornicki ainda estava na Odebrecht e conheceu o presidente da Keppel, Choo Chiau Beng. “O senhor Choo estava curioso para saber mais sobre o Brasil e eu estava muito envolvido no setor como diretor comercial da Odebrecht. Então expliquei o que estava acontecendo no mercado brasileiro, inclusive o fato de a Petrobras estar interessada em construir duas plataformas de produção submersíveis”, afirmou Skornicki à publicação.
Mais tarde, em 2000, a empresa asiática montou o estaleiro responsável pela construção da P-52, a maior plataforma da Petrobras até então. O negócio foi costurado por Skornicki. Em parceria com a Pem Setal, a Keppel Fels arrendou o estaleiro falido de Nelson Tanure, o Velrome, e o transformou no imponente Brasfels, em Angra dos Reis. “A Fels não senta e espera os clientes entrarem porta adentro, mas responde cuidadosamente às suas necessidades estratégicas”, afirmou o engenheiro à publicação. Ainda na mesma reportagem, Skornicki disse que a empresa se mostrou “agressiva” para conseguir os contratos “certos” no Brasil.
Ainda que as investigações estejam apenas no início, a ascensão de Skornicki entre os anos 1990 e os dias de hoje impressiona. Em meados de 1999, era o dono e único funcionário da Eagle do Brasil. Não havia sequer um estagiário que o ajudasse. Os projetos tocados pelo engenheiro exigiam tão pouca mão de obra que ele não tinha uma sala para chamar de sua. Seu escritório consistia de uma mesa e uma linha telefônica e funcionava dentro de uma consultoria já existente, a Conpet, no centro do Rio de Janeiro. Skornicki permaneceu ali até o final de 2003, quando se mudou definitivamente para a sede da Keppel Fels, no Rio de Janeiro. O endereço (Rua da Assembleia, 10) abriga um prédio comercial que, curiosamente, anos mais tarde, veio a ser a sede da consultoria de Renato Duque, a D3TM. Os louros colhidos durante os anos como “representante comercial” da Keppel Fels lhe renderam alguns luxos, como uma mansão em Angra dos Reis assinada pelo escritório de arquitetura Atelier Jacobsen — uma cisão do conceituado Bernardes e Jacobsen (confira as imagens abaixo). O patrimônio do empresário ainda inclui barcos, imóveis no Rio de Janeiro e em Miami.

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