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he Economist’ critica Bolsonaro e alerta para clima de incerteza

Foto: Wilton Junior/Estadão
O candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro
Com a proximidade das eleições 2018, uma das mais incertas da história, a revista britânica The Economist trouxe em sua edição mais recente duas reportagens sobre a votação de outubro. Uma delas foi apresentada na sessão da América Latina e fala do “grande suspense” em relação às urnas. A outra foi publicada na sessão de Líderes sob o título “Brasília, temos um problema” e faz duras críticas ao candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro. Na publicação sobre líderes, o semanário salienta que, faltando apenas dois meses para o primeiro turno, “ninguém tem a menor ideia do que vai acontecer”. Cita que o principal candidato é Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, ex-presidente de esquerda, que está na cadeia e que os tribunais quase certamente o impedirão de concorrer. O restante é fragmentado e nenhum candidato tem mais de 20%, o que deve levar ao segundo turno em 28 de outubro. “No momento, qualquer uma das quatro ou cinco pessoas poderia ganhar a eleição”. A provável desqualificação de Lula é apenas uma das muitas razões pelas quais essa eleição é especialmente preocupante, segundo a Economist. A revista salienta que seus apoiadores estão convencidos de que ele foi injustamente isolado, as acusações de corrupção contra ele são falsas e sua sentença de 12 anos é excessiva. Mas sob uma lei que o próprio Lula assinou quando era presidente, os condenados não podem concorrer ao cargo. Sua saída, no entanto, aumentaria um segundo perigo: a de o candidato de direita e segundo colocado nas pesquisas, Jair Bolsonaro, se tornar o favorito. O sucesso do ex-capitão do Exército foi atribuído pela publicação a uma combinação de provocação e domínio das mídias sociais. “Mesmo que ele não ganhe, o fato de ter chegado tão longe mostra que o centro da política está desmoronando. Rejeitar Bolsonaro seria a melhor maneira de reforçá-lo”. O veículo britânico lembra que até recentemente, ele era um congressista obscuro cujo principal talento era ofender. Em 2011 ele disse que preferiria um filho morto a um gay. Em 2014 disse a uma parlamentar que ele não iria estuprá-la porque ela era ‘muito feia’. No ano passado, foi multado por insultar pessoas que vivem em quilombos. Depois de citar a recessão e a Lava Jato, a Economist ressalta que Bolsonaro propõe soluções radicais para os problemas do País: acha que “um policial que não mata não é um policial” e quer reduzir a idade de responsabilidade criminal para 14. “Esse punho de ferro pertence a uma visão de mundo autoritária.” Mencionou a dedicação do voto de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff a um torturador e comentou que a mensagem de valorizar a ditadura foi vista com a nomeação de Hamilton Mourão, um general aposentado, como seu vice. “No ano passado, ainda de uniforme, Mourão sugeriu que, se outras instituições não conseguissem resolver os problemas do Brasil, o Exército poderia. A esquerda é principalmente a culpada pelos males do País, na visão tingida pela Guerra Fria de Bolsonaro”. Para os brasileiros cansados de políticos, Bolsonaro parece um antipolítico. A revista destaca que alguns empresários estão flertando com ele. Eles gostam de sua retórica sobre o crime e estão intrigados com sua recente conversão ao liberalismo econômico (ele defende a privatização de algumas empresas estatais). “No entanto, Bolsonaro seria um presidente desastroso. Sua retórica mostra que ele não tem respeito suficiente para que muitos brasileiros, incluindo gays e negros, governem de forma justa. Há pouca evidência de que ele entende os problemas econômicos do Brasil bem o suficiente para resolvê-los. Suas genuflexões à ditadura fazem dele uma ameaça à democracia em um país onde a fé nela foi abalada pela exposição do suborno e a miséria da crise econômica”. A Economist aponta que mais de 60% dos brasileiros dizem que nunca votarão nele, mais de três vezes a parcela daqueles que afirmam ter seu apoio. “Ele não tem apoio de nenhum partido político forte. Se chegar ao segundo turno, as chances são de que os eleitores escolham com relutância a alternativa, talvez Geraldo Alckmin, um candidato de centro. Ele não merece chegar nem tão longe. Não há espaço para complacência”, argumentou. A revista diz ainda que outros países com a mistura de crime, fracasso da elite e agonia econômica elegeram líderes radicais. “Isso poderia acontecer novamente”. Na outra reportagem, o enfoque é mais sobre as incertezas em relação ao pleito. “Se a política brasileira fosse uma telenovela, a eleição geral em outubro daria um final fascinante.” A publicação explica que um grupo heterogêneo de pretendentes está competindo pela mão de um eleitorado desapontado e que o final é impossível de adivinhar, pois é diferente de qualquer outra que veio antes. Os eleitores estão mais enojados do que em qualquer outro momento desde o fim da ditadura militar em 1985. Mais de um quarto estão indecisos, uma parcela extraordinariamente alta a apenas dois meses antes do primeiro turno; 31% dizem que podem votar nulo ou em branco. Para a Economist, a desilusão torna os eleitores imprevisíveis: optarão por um dos candidatos ao establishment, que retêm as vantagens habituais de apoio de partidos fortes e a maior parte do tempo de publicidade? Ou vão escolher um dos radicais, que devem divulgar sua mensagem principalmente através da mídia social? Para complicar ainda mais a situação, há um novo regime político-financeiro e novas regras para eleger os membros do Congresso. A aposta mais segura pode ser que a eleição não produza as condições para a renovação política e econômica de que o Brasil precisa. A reportagem traz ainda um resumo dos últimos anos do País sob a ótica política e econômica, volta a dizer que Lula continua sendo o político mais popular do país, mas que dificilmente disputará por causa de sua condenação e cita pesquisas de intenção de votos com vários cenários. “Se as regras antigas se aplicassem, Alckmin seria o favorito forte. Isso não é por causa de seu carisma. Treinado como anestesiologista, ele é ridicularizado pelos brasileiros como picolé de chuchu”, trouxe a publicação explicando que se trata de um “vegetal sem sabor”. Lembra, porém que o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de Alckmin é um dos mais poderosos e cita o apoio do “centrão” ao tucano, que lhe dá 44% do tempo de publicidade televisiva gratuita, muito mais do que qualquer outro candidato, e também a maior parte do financiamento público de campanha, vantagens que no passado, de acordo com o semanário, seriam decisivas.
Estadão Conteúdo

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