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Moro é o herói que amamos odiar ou o vilão que odiamos amar?
Foto: Joilson César / Ag. Haack / Bahia Notícias
O juiz Sérgio Moro teve uma participação discreta no Simpósio Nacional de Combate à Corrupção, organizado em Salvador pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF). Falou para um público cujo espectro político não causaria reações contrárias – no máximo aplausos – e evitou opiniões polêmicas. A controvérsia em torno dele não é ele. É uma consequência da atuação dele na Operação Lava Jato. E que transforma o magistrado em duas coisas: o herói que amamos odiar e o vilão que odiamos amar.

Enquanto Moro falava para delegados da Polícia Federal e pessoas ligadas à associação, um pequeno grupo tentava, em vão, chamar atenção para o que consideram “injustiças” protagonizadas pelo juiz. Não, eles não falavam das condenações de empresários ou de políticos de menor escala. Os manifestantes bradavam “Lula Livre”, numa referência ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma espécie de indignação seletiva, muito comum em casos de militância apaixonada. Esse não é caso, apesar de ter sido irônico o grito de “Lula Livre” ter sido feito por manifestantes “amordaçados”.

Para pessoas que pensam como aqueles manifestantes, que estavam proibidos pela Justiça de realizar o ato, mas ainda assim o fizeram, o juiz federal é o vilão perfeito. Todos os problemas do PT e de Lula se resumem ao que esse grupo chama de seletividade da Justiça e, se Moro não existisse, o ex-presidente estaria livre para concorrer ao Palácio do Planalto em 2018 e acabaria eleito ainda no primeiro turno.

Moro, então, é o antagonista perfeito para a narrativa de injustiça que alimenta a militância em torno da mitificação de Lula. Se a condenação foi amparada nas leis, isso pouco importa. O juiz é o vilão que esse segmento social odeia amar. Afinal, é ele que proporciona todos os momentos de êxtase ao defender Lula e o progresso social construído única e exclusivamente por ele no Brasil – afinal, o país só passa a existir a partir de 2003.

Se do lado de fora alguns gatos pingados tentavam protestar contra Moro, do lado de dentro foi possível ver senhorinhas defendendo a atuação do juiz herói. Dentro da sala de cinema, onde o juiz “valia ouro”, era tudo sem muito alarde. Na entrada do evento, cidadãs comuns – de bem – bradavam “político na cadeia”, como se os brados fossem influenciar a decisão do juiz.

Entre esses que, de alguma forma, apoiavam Moro estavam algumas dezenas que têm conhecimento jurídico o suficiente para admitir que o magistrado cometeu e comete alguns excessos no andamento de processos. Incluindo aí o do ex-presidente, como os eventuais exageros no embate de Lula preso e Lula solto, há pouco mais de um mês. Todavia, qualquer pessoa precisa de um herói, razão pela qual, ainda que odiando certas ações de Moro, muitos amam o juiz que virou símbolo de um país que precisa ser passado a limpo, ao menos para uma parcela expressiva da população.

Controvérsias à parte, o titular da 13ª Vara Federal de Curitiba (PR) – vejam que ironia, é o número do PT – é um misto de mocinho e bandido que quase todos acreditamos quando crianças e adolescentes. O problema é que, passados muitos anos, ainda investimos tempo refletindo sobre essa dicotomia romântica do bem e do mal. Enquanto a vida real é muito mais cinza do que o preto e o branco.

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