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Somos todos russos (nem tanto)


Os russos chegaram (Grozny, capital da Chechênia, anos 90)
Há uma enorme distância em vários sentidos entre a maratona de Boston, vítima do terror em 15 de abril passado, e os Jogos Olímpicos de Inverno que serão realizados em fevereiro próximo em Sochi, na Rússia, no Mar Cáspio, perto das montanhas do Cáucaso. Muita geografia. A conversa aqui é sobre geopolítica. Sochi 2014 faz parte da maratona do presidente russo Vladimir Putin para ser prestigiado e tratado com o devido respeito pelo mundo.
E Boston 2013 resultou em vitória para o autocrata russo na jornada para Sochi. Ele quer solidariedade agora, como vítima e inimigo do terror islâmico. Sua imagem de autocrata ameaçador está relegada para um plano secundário em capitais ocidentais. Putin, embora de forma desconfortável e suspeita, tem papel de aliado na boa causa.
Afinal, ele pode ajudar nas investigações sobre o que aconteceu em Boston. Os dois irmãos Tsarnaev, os suspeitos pelo terror na maratona, são muçulmanos, etnicamente chechênios e cresceram naquele fim do mundo turbulento do Cáucaso, onde pipocam militantes nacionalistas e jihadistas. O mais velho, Tamerlan, aquele que morreu na sexta-feira passada, circulou pelo Cáucaso no ano passado. O debate é se trouxe algo mais de lá, além de inspiração e mais fervor religioso.
Putin está numa de “bem-que-avisei sobre o perigo do radicalismo islâmico. A tragédia em Boston, portanto, é uma espécie de presente político para ele. A exemplo de outras ocasiões, como nas brutais e genocidas campanhas russas contra os chechênios nos anos 90 e começo da década passada, o Ocidente deve fazer agora vista grossa aos métodos de combate utilizados por Moscou contra insurgentes e terroristas, na contagem regressiva para Sochi. Tal atitude americana já fora acentuada depois dos atentados do 11 de setembro, a partir de quando Putin faturou como pôde com esta corrente para frente contra o terror islâmico.
No entanto, é importante lembrar o próprio papel de Putin na radicalização e mutação da mobilização nacionalista no Cáucaso para uma causa pan-islâmica. Em 2002, Putin parecia ter “pacificado” a Chechênia, após duas guerras em que os russos adotaram a política de terra arrasada (na tradição czarista e stalinista). E desde então, rebeldes nacionalistas (que nunca foram anjos também) foram ofuscados por jihadistas, envolvidos em atos terroristas simplesmente horrendos, como a tomada de reféns na escola na cidade de Belsan em 2004, que culminou com a morte de 380 pessoas.
Mas esta é uma conversa literalmente acadêmica (mais debatida por acadêmicos), pois em termos políticos existe esta tolerância com Putin. E o presidente russo não é bobo. Ele aproveita esta comoção gerada pelo terror em Boston para tentar ganhar pontos na Síria, onde apoia a ditadura de Bashar Assad.
Putin e Assad metralham sem cessar que a insurgência síria é dominada por grupos afiliados à rede terrorista Al Qaeda, Uma espécie de brigadas internacionais do jihadismo atua na guerra civil. De acordo com as autoridades russas ou seus papagaios na imprensa, centenas ou mesmo milhares de radicais chechênios estão combatendo na Síria.
No caminho de Damasco, agora está Boston. O terror na maratona reforça a narrativa russa no sentido de que é preciso uma união internacional contra o terror, em qualquer parte do mundo. Nesta linha de raciocínio de Moscou, o Ocidente não deve armar rebeldes sírios. Em última instância, isto vai beneficiar os jihadistas.
Tudo, claro, é mais complicado. Mas Putin, nunca camarada com as sutilezas, tem seus motivos para simplificar as coisas nestes momentos de indignação e alta ansiedade. Os Jogos Olímpicos de Sochi terão lugar só em fevereiro, mas Putin ganhou uma medalha na maratona de Boston

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