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Governo traça estratégia para minar CPI do BNDES

Planalto teme efeitos da comissão sobre a economia – e a já grave crise política. Governo tenta tornar o colegiado misto, com a participação de senadores

Prédio do BNDES no Rio de Janeiro
Prédio do BNDES no Rio de Janeiro.
O governo federal avalia que a CPI do BNDES tem potencial para provocar mais estragos que a da Petrobras e, alegando risco de prejuízos econômicos, já trabalha para esvaziar a investigação. Autorizada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a comissão pretende apurar os empréstimos secretos concedidos pelo banco a outros países, como Angola e Cuba, e os repasses feitos a empresas de fachada que foram alvo de denúncia na Operação Lava Jato. Entre 2003 e 2014, o BNDES concedeu financiamentos de pelo menos 2,4 bilhões de reais a essas empreiteiras.
Na reunião da presidente Dilma Rousseff nesta segunda-feira com ministros da coordenação política, o Planalto avaliou que a CPI pode paralisar a instituição e causar prejuízos à economia. O receio é de que o impacto da comissão sobre a atividade econômica seja ainda pior do que o provocado pela CPI da Petrobras, aumentando a temperatura da crise política.
Na tentativa de obter maior controle sobre as investigações, o governo vai trabalhar para que a CPI seja mista, envolvendo não só deputados - muitos dos quais sob orientação de Cunha - como senadores. Em conversas reservadas, auxiliares de Dilma acreditam que até mesmo os empresários, financiadores de campanha, atuarão para esvaziar a CPI.
Segundo informações obtidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, a equipe econômica estuda abrir uma linha de crédito para capital de giro, financiada pelo BNDES, para socorrer empresas em dificuldades após a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e evitar demissões em massa. Ministros dizem, porém, que nada disso será levado adiante se a CPI vingar.
Rompido com o governo desde que o lobista e delator Júlio Camargo o acusou de ter cobrado propina de 5 milhões de dólares, Cunha quer pôr o PMDB na presidência e na relatoria da CPI do BNDES, o que preocupa o Planalto. Para piorar o quadro, o governo sabe que o grupo de Cunha e a oposição tentarão constranger o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na CPI e temem o agravamento da crise. Na semana passada, a Procuradoria da República no Distrito Federal abriu investigação contra Lula, acusando-o de tráfico de influência.
A suspeita levantada pelo Ministério Público é a de que Lula, após deixar a Presidência, tenha usado seu poder para facilitar obras da Odebrecht em países da África e da América Latina, com financiamento do BNDES. Em nota, o Instituto Lula disse que o procedimento aberto contra ele é "irregular, intempestivo e injustificado". "Não há possibilidade de ingerência política no BNDES", afirmou Luciano Coutinho, presidente do banco.
Recesso - A estratégia do Planalto é tentar pacificar a relação com o Congresso durante o recesso, liberando emendas parlamentares e acertando nomeações de segundo e terceiro escalões. Embora o governo ache que Cunha "passou dos limites", a ordem é isolá-lo, e não partir para o ataque. "Eu quero ver isso como uma questão de momento, em que ele (Cunha) se sentiu injustiçado", disse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. "Espero que essas iniciativas não se traduzam na busca de desestabilização das relações políticas e do próprio quadro institucional. Não creio que ele faria isso."
Por ordem de Dilma, ministros também tentarão se reaproximar do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Na sexta-feira, Renan chamou de "tacanhas e ineficientes" as medidas de ajuste fiscal do governo. "Ele pode fazer a crítica que quiser porque é aliado", amenizou o ministro das Relações Institucionais, Eliseu Padilha.
(Com Estadão Conteúdo)

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