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Dilma x Jango: as diferenças entre 13 de março de 2015 e o de 1964

Protestos convocados pela CUT e movimentos sociais, nesta sexta-feira 13, têm muito pouco em comum com a manifestação de 51 anos atrás

 


Dilma Rousseff e João Goulart, o Jango
Dilma e Jango: comparação com março de 1964 é tentadora, mas a situação é outra
As manifestações convocadas pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e movimentos sociais, nesta sexta-feira 13, levaram alguns a enxergar, na coincidência, as semelhanças com os conflitos que culminaram com a queda do presidente João Goulart. Há 51 anos, também numa sexta-feira 13 de março, Jango participou do histórico comício da Central do Brasil. Seu discurso acirrou os ânimos dos militares e dos segmentos mais conservadores do País e contribuiu para a sua queda, no fim do mesmo mês.
A repetição da data, porém, não significa que o País enfrente o mesmo cenário, apesar da tentação de afirmar o contrário. O primeiro e mais óbvio motivo é que a presidente Dilma Rousseff não comparecerá a nenhum dos atos convocados pela CUT. As manifestações estão marcadas em todas as capitais, mais Brasília, e começarão entre as 9 horas e as 17 horas. Logo, a possibilidade de Dilma fazer um discurso que acirre os ânimos e seja visto como provocação por seus adversários não existe. Em 1964, na frente da estação central de trens do Rio de Janeiro, Jango aproveitou o evento para anunciar uma série de medidas que exasperaram a direita: reforma agrária, direito de voto a analfabetos, controle de aluguéis e liberdade de organização dos partidos políticos.
Mesmo que comparecesse a algum ato, Dilma está longe de ser tão incendiária, quanto seu antecessor. Desde que iniciou o segundo mandato, em janeiro, a presidente não faz outra coisa, além de defender um ajuste de contas públicas para conter a inflação e tirar o Brasil da pasmaceira econômica em que se encontra. O tratamento prescrito pelo seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não poderia ser mais ortodoxo: controle de gastos públicos, geração de superávit primário, alta de juros, retirada de incentivos fiscais, aumento de impostos, flutuação do câmbio. Resumindo: tudo que Dilma satanizou e afirmou que seu adversário na corrida presidencial, no ano passado, o senador tucano Aécio Neves, faria e que acarretaria uma grave crise no País, aumentando o desemprego e corroendo a renda.
Apoio parcial
Justamente por esse motivo, há outra diferença entre esta sexta-feira e a sua ancestral. Ao contrário de 1964, quando os movimentos sociais apoiavam amplamente Jango (o que alimentava a paranóia da direita de que ele preparava um golpe de esquerda), a CUT e os movimentos sociais não escondem as críticas a Dilma e às medidas econômicas que adotou. Seu próprio partido, o PT, está dividido. Por isso, os sindicalistas fazem malabarismos verbais para justificar o ato: são a favor da democracia, da Petrobras e dos direitos trabalhistas, mas isso não significa que apóiem o governo.
A reforma agrária é outro exemplo de como Dilma e Jango estão em pólos opostos. Enquanto o ex-presidente apoiava as Ligas Campesinas de Francisco Julião e enfrentava os grandes proprietários para promover a reforma agrária, Dilma se distanciou do Movimento Sem Terra (MST), a ponto de ser criticada abertamente por João Pedro Stédile, um dos líderes da organização. Dilma também entrou para a história recente como a presidente que menos desapropriou terras para redistribuir. E, para espanto da esquerda, nomeou Kátia Abreu, uma das mais destacadas representantes do agronegócio, para o Ministério da Agricultura. Em recente entrevista, a ministra, que chegou a ser chamada de “motosserra de ouro” por ambientalistas, afirmou que não há mais latifúndios no País.
Alguns afirmam que a semelhança com 1964 deve-se ao clima de golpe, expresso por quem defende o impeachment da presidente ou uma intervenção militar. O motivo seria o suposto desvio de dinheiro da Petrobras para bancar a campanha da presidente em 2010. O esquema de corrupção na estatal é investigado pela Operação Lava Jato, que conta com a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça. É verdade que grupos assim estão pipocando nas redes sociais e conseguiram organizar um panelaço em 8 de março, durante o pronunciamento de Dilma em cadeia nacional de rádio e TV, em homenagem ao Dia da Mulher. Mas, até o momento, nenhuma liderança de peso endossou, pelo menos publicamente, o impeachment da presidente. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já afirmou que tirar Dilma “não adianta nada”. Já Aécio, que também é presidente nacional do PSDB, declarou que o assunto “não está na agenda” do partido.
Pelo menos, por ora, o impeachment de Dilma é defendido apenas por grupos desarticulados e sem líderes de projeção. Uma manifestação contra Dilma é organizada pelas redes sociais e está marcada para o domingo 15. Embora alguns apostem que ela contará com mais participantes que os atos da CUT, os cientistas políticos tendem, por enquanto, a interpretar o movimento como efêmero, como foram os protestos que chacoalharam o País em julho de 2013. “É praticamente um flashmobe”, afirma o cientista político Fernando Luis Schuler, do Insper, em alusão aos eventos organizados por celulares e redes sociais e que mobiliza anônimos para atos instantâneos, como intervenções artísticas em um local, e depois se dissolvem. Assim como os celulares eram apenas ficção científica em 1964, as semelhanças do momento com março de 1964 estão, muito mais, na imaginação de quem é contra ou a favor da queda de Dilma, do que na realidade.

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