O povo da praça contra Putin
Opositores usam tecnologia para agir de baixo para cima, estratégia estranha ao líder russo
Em uma famosa entrevista feita em 1995 sobre a infidelidade do príncipe Charles, a princesa Diana observou que havia três pessoas no casamento, por isso, ele "estava um pouco apertado". Ultimamente, tenho pensado nessa frase em grande parte para descrever a nova política e geopolítica causadas pelo "povo da praça" - aspirantes à classe média que se reuniram em praças, do Cairo a Kiev, de Istambul a Teerã e de Túnis a Moscou, para exigir o direito de se manifestar sobre o seu futuro e um governo melhor.
Muitos líderes estão descobrindo que os povos da praça são uma espécie de terceiro partido surgido espontaneamente e, consequentemente, sua política está se tornando um pouco apertada - e muito mais interessante. Na realidade, "a praça" - o local em que essas forças políticas recentemente ligadas a redes sociais se reúnem, colaboram e pressionam, pela primeira vez - está, de fato, revolucionando a política tradicional e a geopolítica.
No entanto, o fenômeno mais importante a se observar daqui em diante é quais serão os povos da praça que conseguirão fazer a transição da revolução para a construção - ou seja, reunir a energia e as aspirações frustradas dos seus seguidores e transformá-las em partidos, eleições e melhor governança. Sem dúvida, o mais interessante desses dramas hoje envolve o povo da praça na Ucrânia contra o presidente da Rússia, Vladimir Putin.
Putin estava cuidando dos seus negócios corruptos, vivendo um relacionamento a dois com a vizinha Ucrânia, então governada por Viktor Yanukovich, mais corrupto ainda. De repente, uma aspirante classe média de ucranianos, emergente e conectada - cansada da corrupção do regime e do fato de seu país ter sido superado pelos vizinhos da União Europeia - exigiu que Yanukovich estreitasse a cooperação e os vínculos comerciais com a UE.
Esses ucranianos exigiram também algo agora comum em todas as praças: o direito de serem tratados como "cidadãos" com direitos e responsabilidades, não como brinquedos nas mãos de oligarcas ou potências externas.
No entanto, Yanukovich optou por vínculos econômicos com a Rússia e o povo da praça de Kiev o derrubou, contestando cada aspecto da visão de mundo de Putin, segundo o modelo da KGB. Putin não acredita que protestos políticos possam ser espontâneos. Se uma multidão de ucranianos se reúne na praça de Kiev para exigir o fim da corrupção e o estreitamento dos laços com a UE, só pode ser porque a CIA, a Otan ou Bruxelas os inspiraram ou os pagaram.
Putin só consegue pensar de cima para baixo. A ideia de que a fusão de globalização e revolução da tecnologia da informação possa ter dado ao povo a capacidade de ver coisas que antes não via - e os instrumentos para colaborar e agir de baixo para cima - lhe é totalmente estranha.
Putin olha para trás, tenta restaurar o império czarista, usando seus recursos naturais, enquanto o povo da praça, em Kiev, olha para frente, tenta associar-se à UE para desenvolver seus recursos humanos. O povo acredita que integrando sua economia com a Europa produzirá mais que a reforma judicial, a transparência e as regulamentações não conseguiram fazer pela ação das bases, que seus líderes jamais implementariam de cima. Para o povo da praça, a associação entre UE e Ucrânia constitui uma alavanca vital para a renovação nacional, ao passo que, para Putin, é uma ameaça frontal à sua "esfera de influência".
O mesmo ocorre na Turquia. Um movimento espontâneo surgiu no país para resistir à tentativa do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, de construir um shopping center no único espaço verde da Praça Taksim, no centro de Istambul, mas, rapidamente, cresceu e transformou-se em protesto contra seu governo autocrático.
Erdogan se irritou. Ele criara um universo bipartidário composto apenas por ele próprio e pelos partidos da oposição oficial turca e as emissoras de TV que ele intimidara, domesticara e neutralizara. O povo da praça na Turquia criou uma nova oposição e sua própria rede de TV pelo Twitter e YouTube.
Erdogan, porém, conseguiu manobrar seu povo da praça com reiteradas vitórias eleitorais. Como? Uma matéria sobre a Turquia publicada no site da Forbes, no dia 16, dá uma resposta: sua base eleitoral, em sua maioria rural, não está no YouTube ou no Twitter. Ela desconhece a tecnologia, recebe suas informações da TV, que ele controla. "As TVs mostram apenas os prejuízos e a virulência dos protestos, uma seleção de imagens que acaba dando a impressão de anarquia desencadeada no país por arruaceiros enraivecidos", diz a reportagem. Putin usou a mesma propaganda em Moscou e na Ucrânia.
A incapacidade de traduzir suas aspirações em partidos que possam competir nas eleições e depois governar é o calcanhar de Aquiles do povo da praça. Ou como Moisés Naím, autor de O Fim do Poder e colunista do Estado, observou recentemente na revista The Atlantic
Muitos líderes estão descobrindo que os povos da praça são uma espécie de terceiro partido surgido espontaneamente e, consequentemente, sua política está se tornando um pouco apertada - e muito mais interessante. Na realidade, "a praça" - o local em que essas forças políticas recentemente ligadas a redes sociais se reúnem, colaboram e pressionam, pela primeira vez - está, de fato, revolucionando a política tradicional e a geopolítica.
No entanto, o fenômeno mais importante a se observar daqui em diante é quais serão os povos da praça que conseguirão fazer a transição da revolução para a construção - ou seja, reunir a energia e as aspirações frustradas dos seus seguidores e transformá-las em partidos, eleições e melhor governança. Sem dúvida, o mais interessante desses dramas hoje envolve o povo da praça na Ucrânia contra o presidente da Rússia, Vladimir Putin.
Putin estava cuidando dos seus negócios corruptos, vivendo um relacionamento a dois com a vizinha Ucrânia, então governada por Viktor Yanukovich, mais corrupto ainda. De repente, uma aspirante classe média de ucranianos, emergente e conectada - cansada da corrupção do regime e do fato de seu país ter sido superado pelos vizinhos da União Europeia - exigiu que Yanukovich estreitasse a cooperação e os vínculos comerciais com a UE.
Esses ucranianos exigiram também algo agora comum em todas as praças: o direito de serem tratados como "cidadãos" com direitos e responsabilidades, não como brinquedos nas mãos de oligarcas ou potências externas.
No entanto, Yanukovich optou por vínculos econômicos com a Rússia e o povo da praça de Kiev o derrubou, contestando cada aspecto da visão de mundo de Putin, segundo o modelo da KGB. Putin não acredita que protestos políticos possam ser espontâneos. Se uma multidão de ucranianos se reúne na praça de Kiev para exigir o fim da corrupção e o estreitamento dos laços com a UE, só pode ser porque a CIA, a Otan ou Bruxelas os inspiraram ou os pagaram.
Putin só consegue pensar de cima para baixo. A ideia de que a fusão de globalização e revolução da tecnologia da informação possa ter dado ao povo a capacidade de ver coisas que antes não via - e os instrumentos para colaborar e agir de baixo para cima - lhe é totalmente estranha.
Putin olha para trás, tenta restaurar o império czarista, usando seus recursos naturais, enquanto o povo da praça, em Kiev, olha para frente, tenta associar-se à UE para desenvolver seus recursos humanos. O povo acredita que integrando sua economia com a Europa produzirá mais que a reforma judicial, a transparência e as regulamentações não conseguiram fazer pela ação das bases, que seus líderes jamais implementariam de cima. Para o povo da praça, a associação entre UE e Ucrânia constitui uma alavanca vital para a renovação nacional, ao passo que, para Putin, é uma ameaça frontal à sua "esfera de influência".
O mesmo ocorre na Turquia. Um movimento espontâneo surgiu no país para resistir à tentativa do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, de construir um shopping center no único espaço verde da Praça Taksim, no centro de Istambul, mas, rapidamente, cresceu e transformou-se em protesto contra seu governo autocrático.
Erdogan se irritou. Ele criara um universo bipartidário composto apenas por ele próprio e pelos partidos da oposição oficial turca e as emissoras de TV que ele intimidara, domesticara e neutralizara. O povo da praça na Turquia criou uma nova oposição e sua própria rede de TV pelo Twitter e YouTube.
Erdogan, porém, conseguiu manobrar seu povo da praça com reiteradas vitórias eleitorais. Como? Uma matéria sobre a Turquia publicada no site da Forbes, no dia 16, dá uma resposta: sua base eleitoral, em sua maioria rural, não está no YouTube ou no Twitter. Ela desconhece a tecnologia, recebe suas informações da TV, que ele controla. "As TVs mostram apenas os prejuízos e a virulência dos protestos, uma seleção de imagens que acaba dando a impressão de anarquia desencadeada no país por arruaceiros enraivecidos", diz a reportagem. Putin usou a mesma propaganda em Moscou e na Ucrânia.
A incapacidade de traduzir suas aspirações em partidos que possam competir nas eleições e depois governar é o calcanhar de Aquiles do povo da praça. Ou como Moisés Naím, autor de O Fim do Poder e colunista do Estado, observou recentemente na revista The Atlantic
Tufekci escreve, de acordo com Naím, que antes da internet, o trabalho tedioso de organização, imprescindível para driblar a censura ou organizar um protesto, também contribuía para construir uma infraestrutura para a tomada de decisões e estratégias a fim de manter o impulso. "Hoje, os movimentos podem passar por cima desse passo, frequentemente em detrimento próprio", escreveu Naím.
Daniel Brumberg, especialista em democracia da Universidade Georgetown e do Instituto Americano pela Paz, destaca que o povo da praça mais bem-sucedido no mundo árabe, que formulou uma nova Constituição, está na Tunísia, o país do mundo árabe onde há instituições mais sólidas que podiam arbitrar entre as facções religiosas e seculares". A Tunísia também foi beneficiada por um Exército que se manteve afastado da política e pelo fato de as forças islâmicas e seculares terem alcançado um equilíbrio de poder, exigindo que elas se complementassem.
Sinto-me encorajado pelos vários grupos da sociedade civil que monitoram o governo, surgidos na Ucrânia, para garantir que a vontade do povo da praça não lhe fosse roubada. Resta ver se o povo conseguirá desenvolver uma política que inclua todas as forças, respeitando a visão da população majoritariamente russa no leste ucraniano. Sem o povo da praça, nenhuma mudança será possível nesses países, mas sem as instituições da sociedade civil e uma política inclusiva, nenhuma mudança conseguirá se sustentar.
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