Pular para o conteúdo principal

Parentes de colombianos ainda reféns queixam-se do abandono de Bogotá

Menos atenção. Diminuição do número de sequestros teria desestimulado o governo a combater esse tipo de crime com o mesmo vigor com que fazia nas décadas passadas; para famílias, políticas governamentais da Colômbia passaram a ter outras prioridades

 
 
No quarto de Enrique Márquez "Kike" Díaz, advogado de 45 anos, há um aparelho de som 3 em 1 preto brilhando como novo. Ao lado do toca-discos, estão fitas k-7 e alguns LPs de cantores colombianos do anos 90. Kike foi levado por guerrilheiros em 10 de fevereiro de 1999, quando na Colômbia havia 3 mil sequestros por ano e o drama dos reféns era "o tema" de segurança pública no país.

A redução drástica desse tipo de crime - em 2013 foram 292, apenas 32 pela guerrilha -, paradoxalmente, golpeou a esperança dos parentes dos cativos. As campanhas contra sequestro minguaram. Predominam nas rádios e nas TVs o estímulo à deserção e reinserção dos integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Os candidatos na eleição de domingo mencionam o tema depois de outros pontos na negociação de paz em vigor desde setembro de 2012.
"Com menos sequestros, as pessoas esqueceram dos sequestrados. Esta é uma queixa dos parentes", diz Ismael Enrique Márquez Correal, pai de Kike e presidente da Associação Nacional de Sequestrados e Desaparecidos.
Aos 78 anos, ele comanda as reuniões com dezenas de famílias na mesma situação. Há pelo menos 13 mil sequestrados ou desaparecidos registrados hoje - segundo as Farc, nenhum em seu poder. Kike foi capturado no centro de Bogotá aos 32 anos. Era um dos diretores de uma cooperativa de crédito em que as Farc tinham depósitos em nome de testas de ferro. Na primeira semana apos o sequestro, a família manteve contato por telefone com a guerrilha, que impôs uma condição para sua liberação: que o gerente da cooperativa negociasse a "devolução" do dinheiro. "Acreditamos que ele trabalhe a força para as Farc, que tem uma equipe de engenheiros, advogados e mão de obra qualificada", afirma Ismael.
Durante 14 anos, o quarto de Kike permaneceu intocado. Há 7 meses, Ismael e a mulher deixaram o apartamento com três suítes, para morar na periferia de Bogotá. Ismael teve um infarto, que ele credita ao estresse dos 15 anos durante os quais o filho ficou preso, e gastou as economias no tratamento.
Na nova casa, Kike continua tendo um quarto com as coisas de que gosta mais. O 3 em 1, entre elas. "Tenho certeza de que ele está vivo. Pelo menos meu coração tem", diz a mãe, Amalia, que limpa e organizar semanalmente o lugar.
Nos últimos 15 anos, Ismael acompanhou as mudanças de tática no combate à guerrilha. Logo após o sequestro do filho, o governo colocou como meta a liberação de oito reféns, Kike entre eles. Um mediador recebeu autorização para ir às prisões e negociar informações em troca de privilégios, como banho de sol prolongado e melhor alimentação. Não houve resultado.
O governo de Alvaro Uribe (2002-2010) será lembrado pelos ataques-surpresa em busca de líderes da guerrilha. Na época, Ismael diz ter sofrido com a possibilidade de o filho ser morto como mais um guerrilheiro, já que havia relatos de que usava uniforme. "Era uma estratégia radical, mas estavam tentando algo. Agora, vemos que os projetos com desaparecidos logo são abandonados."
Ele cita uma iniciativa nos moldes das Mães da Praça de Maio, que logo foi abandonada "porque ninguém dava bola". Os "gols pela paz", em que jogadores comemoravam mostrando fotos de sequestrados sob a camiseta, também "saíram de moda". "A verdade é que há reféns de primeira e segunda classe. O esforço para libertar políticos e membros do Exército é maior", reclama.
"É uma questão de política de governo, que passou a ter outras prioridades. As Farc por compromisso, e outros grupos armados por outras razoes, deixaram de depender dos sequestros. Elas se sustentam do narcotráfico, contrabando e extorsões", afirma o cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional da Colômbia.
Um levantamento do governo colombiano, de 2003, indica que os pedidos de resgate variavam entre 140 e 160 milhões de pesos, o que rendeu à guerrilha cerca de 88 bilhões de pesos naquele ano. No total, estima-se que as Farc conseguiram US$ 620 milhões com esse tipo de crime.
Os últimos a insistir no tema dos sequestrados parecem ser os programas de rádio que enviam mensagens a sequestradores e vítimas. O mais conhecido é o Las Voces del Sequestro, conduzido por Herbin Hoyos, aos sábados, há 20 anos. Por atacar esse tipo de crime, Hoyos foi vítima dele em 1994. "As Farc entraram no meu estúdio e me levaram. Fiquei no cativeiro por 17 dias. Senti o que as pessoas para quem acredito que falo sentem. Por isso, continuo falando de Kike e de outros", diz.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Procurador do DF envia à PGR suspeitas sobre Jair Bolsonaro por improbidade e peculato Representação se baseia na suspeita de ex-assessora do presidente era 'funcionária fantasma'. Procuradora-geral da República vai analisar se pede abertura de inquérito para apurar. Por Mariana Oliveira, TV Globo  — Brasília O presidente Jair Bolsonaro — Foto: Isac Nóbrega/PR O procurador da República do Distrito Federal Carlos Henrique Martins Lima enviou à Procuradoria Geral da República representações que apontam suspeita do crime de peculato (desvio de dinheiro público) e de improbidade administrativa em relação ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL). A representação se baseia na suspeita de que Nathália Queiroz, ex-assessora parlamentar de Bolsonaro entre 2007 e 2016, período em que o presidente era deputado federal, tinha registro de frequência integral no gabinete da Câmara dos Deputados  enquanto trabalhava em horário comerc...
Atuação que não deixam dúvidas por que deveremos votar em Felix Mendonça para Deputado Federal. NÚMERO  1234 . Félix Mendonça Júnior Félix Mendonça: Governo Ciro terá como foco o desenvolvimento e combate às desigualdades sociais O deputado Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) vê com otimismo a pré-candidatura de Ciro Gomes à Presidência da República. A tendência, segundo ele, é de crescimento do ex-governador do Ceará. “Ciro é o nome mais preparado e, com certeza, a melhor opção entre todos os pré- candidatos. Com a campanha nas Leia mais Movimentos apoiam reivindicação de vaga na chapa de Rui Costa para o PDT na Bahia Neste final de semana, o cenário político baiano ganhou novos contornos após a declaração do presidente estadual do PDT, deputado federal Félix Mendonça Júnior, que reivindicou uma vaga para o partido na chapada majoritária do governador Rui Costa (PT) na eleição de 2018. Apesar de o parlamentar não ter citado Leia mais Câmara aprova, com...
Lula se frustra com mobilização em seu apoio após os primeiros dias na cadeia O ex-presidente acreditou que faria do local de sua prisão um espaço de resistência política Compartilhar Assine já! SEM JOGO DUPLO Um Lula 3 teria problemas com a direita e com a esquerda (Foto: Nelson Almeida/Afp) O ex-presidente  Lula  pode não estar deprimido, mas está frustrado. Em vários momentos, antes da prisão, ele disse a interlocutores que faria de seu confinamento um espaço de resistência política. Imaginou romarias de políticos nacionais e internacionais, ex-presidentes e ex-primeiros-ministros, representantes de entidades de Direitos Humanos e representantes de movimentos sociais. Agora, sua esperança é ser transferido para São Paulo, onde estão a maioria de seus filhos e as sedes de entidades como a CUT e o MTST.