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Garotinho sai do estúdio para a cadeia

Ex-governador do Rio de Janeiro é preso, acusado de coagir testemunhas, enquanto apresentava programa de rádio


O programa “Fala, Garotinho” tinha quase 46 minutos quando o apresentador – ele, o ex-governador Anthony Garotinho –, voz rouca, começou a comemorar. “Gente, eu quero agradecer muito a vocês”, disse. “O programa Fala, Garotinho disparou!”, e passou a festejar o aumento na audiência do programa na Rádio Tupi, que apresenta nas manhãs de segunda a sexta-feira. Para embalar a voz de Garotinho no momento triunfal surge ao fundo o “Tema da vitória”, a irritante música com o inescapável “tan, tan taaan”, hino das vitórias do piloto Ayrton Senna. E, como se trata de Garotinho, na comemoração sobrou pancada para os adversários, mais exatamente para a turma do ex-governador Sérgio Cabral, a Gangue dos Guardanapos, presa desde novembro. “Aquela gente que sempre denunciei como corrupta, que roubou dinheiro do povo, não queria que eu estivesse no microfone de uma grande emissora”, disse. Garotinho estava feliz na manhã desta quarta-feira (13). 
O ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo)
Garotinho emenda para o locutor vizinho: “Dá aí o negócio do Funaro”.  O radialista lê a notícia da delação premiada do operador Lúcio Funaro, um velho conhecido de quem Garotinho faz que não lembra, e que agora revela pagamentos de propina para o presidente Michel Temer e políticos do Rio de Janeiro à Operação Lava Jato. Garotinho ouve em silêncio, diz “muito bem” e toca o programa. Dez minutos depois – numa mensagem gravada – anuncia um remédio contra impotência sexual, aquele que “acorda o dorminhoco”. Vem a vinheta do “Fala, Garotinho” e – surpresa! – outro locutor entra no ar. “O nosso Garotinho até tentou fazer o programa, mas a voz foi embora”, diz. “A orientação médica é para ele parar de falar. Ele vai se cuidar para amanhã estar de volta.”
A “orientação médica” chegou vestida de preto, em forma de agentes com uniforme da Polícia Federal. Garotinho foi preso no estúdio da emissora, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O juiz Ralph Manhães determinou sua prisão sob os argumentos de que Garotinho ameaça testemunhas, atrapalha investigações ainda em andamento e até contratou um ex-policial civil para vascular a vida de autoridades que o investigam num caso de compra de votos em Campos dos Goytacazes. “Estamos diante de crimes graves que envolvem ameaças às testemunhas e autoridades, supressão de documentos, destruição de provas”, afirma o juiz. O juiz diz que por meio da internet Garotinho faz acusações contra promotores e delegados envolvidos na investigação. Ele afirma que Garotinho tentou contato até com Michel Temer para brecar a investigação.
Nesta quarta-feira, Garotinho foi condenado por Manhães a nove anos e 11 meses de prisão por compra de votos na eleição de 2016, associação criminosa e coação de testemunhas. A sentença dizia que Garotinho desviou R$ 11 milhões do programa social Cheque Cidadão, que a prefeitura de Campos dos Goytacazes, sua terra natal no norte do Rio de Janeiro, mantinha para atender a população carente. O dinheiro serviu para comprar votos que garantiram a eleição de 11 dos 25 vereadores de Campos. No meio da investigação, em novembro de 2016, Garotinho foi preso por ameaça a testemunhas e levado para o presídio de Bangu, mas acabou num hospital por uma crise de hipertensão. Estava solto desde então graças a um recurso judicial.
Nas últimas semanas, Garotinho divulgava sua pré-candidatura ao governo do Rio, pelo PR, na eleição do ano que vem. Agora, ficará em prisão domiciliar em sua casa em Campos. É um sobrado pintado de rosa, em homenagem à mulher Rosinha, numa rua tranquila da cidade. Deverá usar tornozeleira eletrônica, só poderá ter contato com a mulher, os filhos e netos, e não poderá usar celular ou ter acesso às redes sociais. Até visita de médico dependerá de autorização. Por meio das redes sociais, Rosinha afirmou que as acusações contra o marido são falsas. “Faço um apelo às autoridades para que permitam que ele volte a trabalhar honestamente como radialista, o que ele faz há mais de 30 anos e que garante o sustento da nossa família”, afirmou ela. Por meio de nota, o advogado Carlos Azeredo afirma que “a decisão de mantê-lo preso em casa tem a intenção de privá-lo de seu trabalho na Rádio Tupi e em seus canais digitais e, com isso, evitar que ele continue denunciando políticos criminosos importantes, alguns deles que já foram até presos”. A defesa nega as acusações feitas a Garotinho. “O processo fala de suspeitas infundadas de compra de votos, o que por si só não justifica prisão.”

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