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Em depoimento, Miller admitiu que usou relações na PGR para marcar reunião para a JBS

O ex-procurador afirmou que “provocou” a reunião junto ao coordenador da Lava Jato na PGR, Sérgio Bruno, “porque tinha o telefone dele e era com quem tinha mais facilidade para falar”


O procurador Marcelo Miller  (Foto: Alex Lanza/MPMG)
O ex-procurador da República Marcello Miller admitiu, em depoimento obtido por ÉPOCA, que utilizou seu bom trânsito na Procuradoria-Geral da República para marcar uma reunião para a JBS, na qual seria discutido o acordo de leniência e a delação premiada do grupo.
Miller fora exonerado do Ministério Público Federal havia uma semana, em 5 de abril. No dia 11 de abril, foi à PGR acompanhado de Camila Steinhoff, sócia do escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe, e Francisco de Assis e Silva, diretor jurídico do grupo J&F. Ouvido em depoimento no último dia 8 na sede do MPF no Rio de Janeiro, Miller admitiu que intercedeu em favor dessa reunião junto ao coordenador da Lava Jato na PGR, o promotor Sérgio Bruno, por ter uma boa relação com ele.
Segundo o depoimento, Miller afirmou que “provocou a reunião” por intermédio do “doutor Sérgio Bruno, porque tinha o telefone dele e era com quem tinha mais facilidade para falar. Nessa ocasião, foi esclarecido que pretendiam iniciar tratativas para viabilizar a leniência”.
Em outro momento, Miller entra em contradição. Primeiro, afirma que não tratou com ninguém da PGR especificamente sobre a delação, apenas sobre o acordo de leniência. Em seguida, disse que quando soube que o diretor jurídico do grupo J&F, Francisco de Assis e Silva, teria de se tornar delator por narrar fatos ilícitos envolvendo o procurador Ângelo Goulart, anexo que não foi apresentado inicialmente, solicitou a Sérgio Bruno para participar de uma reunião sobre o assunto.
“O depoente teve conhecimento desse fato no mês de abril; que o depoente perguntou se poderia participar da reunião envolvendo acordo de colaboração do J&F, mais especificamente sobre a falta de apresentação desse fato específico relacionado ao procurador Ângelo; que o promotor Sérgio Bruno disse que o depoente não poderia participar”, afirmou.
Segundo Miller, seus planos de deixar o cargo público no MPF começaram a ser traçados no segundo semestre de 2016, quando teve as primeiras conversas sobre o assunto com advogados, dentre eles Fernanda Tórtima, uma das advogadas do grupo J&F. Por isso, ela lhe apresentou ao diretor jurídico do J&F na primeira quinzena de fevereiro deste ano, em uma reunião no escritório de Fernanda Tórtima, afirma Miller. Ele se apresentou a Francisco como “procurador da República que estava decidido a deixar o MPF”. O ex-procurador diz ainda que participou de diversas reuniões com os sócios do escritório Trench Rossi Watanabe entre os dias 1º e 20 de fevereiro. À época, ainda era procurador.
Após estar com Francisco e com os sócios do escritório, Miller diz ter ido a um encontro pessoal com Janot na PGR em 23 de fevereiro, para entregar em mãos o pedido de exoneração. Segundo o ex-procurador, também estava presente no encontro o procurador Vladimir Aras, secretário de Cooperação Internacional da gestão Janot. No depoimento, não há informações sobre se conversaram algo nesse encontro além do pedido de exoneração.
“Antes de entregar o pedido de exoneração ao procurador-geral da República, o depoente participou de uma derradeira reunião na qual estiveram presentes três dos vários sócios majoritários do Trench Rossi Watanabe: Ester, doutor Hercules e doutora Simone Musa, quando definiram os termos do contrato, valores etc.; que o depoente foi orientado a só pedir exoneração após responder ao e-mail dando o seu de acordo com os termos do contrato”, explicou no depoimento.
No dia seguinte ao encontro pessoal com Janot para entregar a carta de demissão, em 24 de fevereiro, Miller dizer ter ido a São Paulo encontrar Francisco. No almoço, foi convidado a ser o diretor de compliance do J&F, mas disse já ter acertado com o escritório Trench Rossi Watanabe. “Pensou na possibilidade de o J&F contratar o escritório ou fazer-lhe uma proposta profissional irrecusável”, contou no depoimento.
Após o almoço, foram à casa de Joesley e, na ocasião, o empresário lhe disse que contrataria o escritório de advocacia. “Indagado ao depoente se conseguiu um cliente antes de integrar o escritório, inicialmente respondeu que sim; que acrescentou que na sua avaliação sua presença no escritório foi relevante, contudo, não foi o único motivo”, afirmou.

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