Mercado vê contradições de Tombini após relatório do FMI e se diz 'traído'
"Esquisito", "decepcionado" e "perplexo" foram alguns dos termos usados por economistas para tratar da nota emitida pelo presidente do BC nesta terça
Para economistas, a autoridade monetária vinha, até então, por meio de seus documentos e discursos, direcionando as expectativas do mercado para uma elevação da taxa básica em 0,5 ponto porcentual. Isso ocorria com o fato de o BC ressaltar seu compromisso com a trajetória de convergência da inflação para a meta central de 4,5% até 2017 e o objetivo de evitar que a inflação fechasse 2016 acima do teto de 6,5%, como ocorreu em 2015.
Mas a nota emitida nesta terça-feira deixou a impressão de que o BC, pressionado por demais membros do governo para dar uma alta menor nos juros, ou nem aumentar, aproveitou o relatório do FMI, que não fez nada além de mostrar o que os números da atividade - e o próprio mercado - vêm atestando há meses, para corrigir a rota das expectativas. O saldo foi o aumento da desconfiança sobre a trajetória dos juros.
Segundo apurou o Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, o governo trabalha com projeção de alta de 0,25 ponto porcentual na taxa. A presidente Dilma Rousseff conversou na segunda-feira com Tombini, em reunião que não apareceu na agenda oficial.
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Nesse contexto, o fato de o BC publicar nota desse tipo na véspera da decisão gerou indignação no mercado. "Inacreditável o BC fazer isso de véspera. Absolutamente injustificável usar os dados do FMI para isso quando o mercado inteiro já está com o cenário consolidado muito ruim para este ano e o ano que vem", disse Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. "Aparentemente, descobrir que a recessão continua este ano pelo FMI realmente só joga mais uma pá de cal na credibilidade do BC."
Dois ex-integrantes do Copom se disseram "perplexos" com a divulgação da nota, para os quais uma postura dessas não tem paralelo na história do BC. "É contraditório com toda a linha apresentada desde o final do ano passado. Ou o BC não passou os recados certos ou teve de mudar de posição de última hora, o que é muito pior", avaliou um deles. "Todos os sinais do BC eram mais hawkishes (inclinados ao aperto), apesar da recessão. Não entendemos o motivo de Tombini passar um recado tão dovish (suave) no meio do caminho", disse outro ex-membro.
Um economista do mercado financeiro admitiu que ficou "bem decepcionado" com a atitude do Banco Central, por ser diferente dos comunicados anteriores. "Recentemente, a (presidente) Dilma falou que o BC era autônomo, mas não independente. Na constituição, é isso mesmo, mas dá um sinal ruim para o mercado", disse. Segundo o economista, outro ponto "esquisito" que o mercado levou em conta foi a reunião ontem entre Tombini e a presidente Dilma, que não estava agendada. "Por isso acho que o mercado agiu tão rapidamente", afirmou.
Para o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro, o Banco Central tem uma missão difícil pela frente. "Para que se mostre comprometido, o BC tem que anunciar um aumento na taxa Selic", diz. "A missão é baixar a inflação o mais rapidamente possível."
(Com Estadão Conteúdo)
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