Pular para o conteúdo principal

Governo estuda regras mais duras para soltar corruptos e violentos

Planalto quer que mudança de regime prisional, nesses casos, só se dê depois de cumprida pelo menos metade da pena; hoje, basta um sexto

Por: Reinaldo Azevedo             
 
 
Há uma expressão bastante usada por advogados criminalistas: “populismo penal”. Em que consistiria? Num conjunto de medidas que supõe o endurecimento do regime prisional com o objetivo de reprimir o crime. Quem emprega tal expressão, de sentido obviamente negativo, não acredita nisso. E há até quem sustente que o recrudescimento é contraproducente. Em que eu acredito? Vamos ver.
Não acho que estamos diante de categorias puras e excludentes. Esse é um debate que tem uma estrutura semelhante à famosa questão: “Você prefere mais Estado na sociedade ou menos?” Bem, eu prefiro mais onde ele se faz necessário e menos onde é desnecessário. E isso não me põe em cima do muro porque eu o considero necessário em bem poucos setores. Só que, nesses, ele me parece muito necessário. Exemplos? Claro! Saúde, educação e segurança pública. E de onde ele deveria ser banido? Energia (incluindo petróleo), finanças, correios… Que tal sermos favoráveis às ideias que funcionem e contrários às que não funcionam? Volto à questão penal.
O governo Michel Temer estuda elevar o tempo mínimo de cumprimento da pena em regime fechado para os condenados por corrupção ativa e passiva e crimes praticados com violência. Mudar-se-ia a progressão das penas. Hoje, alguém pode passar do regime fechado para o semiaberto ou deste para o aberto depois de cumprir um sexto da pena. A ideia é elevar esse tempo mínimo para a metade. A mudança é defendida, por exemplo, pelo ministro da Justiça Alexandre de Moraes.
É claro que cabe um questionamento. O sistema prisional brasileiro está colapsado. Faltam vagas, especialmente nos presídios estaduais. Alguns são verdadeiros pardieiros, e não é raro que fiquemos sabendo de juízes que mandam soltar presos porque não têm onde abrigá-los. A simples elevação do tempo de cumprimento mínimo da pena em regime fechado ou semiaberto — que também é fechado, cumpre lembrar — agravaria o problema. Em números de janeiro do ano passado, o déficit de vagas em penitenciárias para presos já condenados eram de… 600 mil vagas.
Que número é esse? Explica-se: havia 563 mil acomodados em 357 mil vagas — um déficit já existente de 206 mil. E havia outros 430 mil mandados de prisão por cumprir. Dada essa realidade, falar em aumentar o tempo de permanência do preso na cadeia parece rematada loucura.
Então outras medidas se fazem necessárias. Segundo informa a Folha, o governo discute com o Ministério Público e com Conselho Nacional de Justiça a realização de mutirões de custódia para regularizar a situação de presos provisórios. O Ministério da Justiça estima que pelo menos metade está enquadrada em crimes de menor gravidade. Também se buscam condições para que condenados por crimes praticados sem violência cumpram penas de prestação de serviços à comunidade.
Vamos ver
É evidente que eu sou favorável a que condenados por corrupção ou crimes violentos cumpram ao menos metade da pena. E serei de uma transparência que a muitos pode chocar: nem pergunto se tal medida vai estimular ou desestimular o crime. Acho que se trata de uma questão de justiça. É simples assim. Como a ofensa à sociedade é grave, que a pessoa pague o preço de sua escolha.
Ente as dez medidas contra a impunidade, propostas pelo Ministério Público, está tornar a corrupção crime hediondo quando o ato envolver altos valores. Aí já estamos num debate de outra natureza. Dados os crimes hoje considerados hediondos (ver  Lei 8.072 com suas atualizações), não me parece que se possa igualar a corrupção a extermínio, latrocínio, estupro, extorsão mediante sequestro etc. Isso não quer dizer que a pena para os corruptos não possa ser ampliada.
Um governo que decidiu dar um passo ousado e implementar uma medida de controle de gastos para 20 anos tem de pensar também grande numa área de que sucessivos governo fugiram: a construção de presídios. A maior parte da tarefa cabe aos Estados — boa parte deles quebrada. Os mutirões para desafogar as penitenciárias certamente não constituirão uma resposta plena. O déficit vai continuar. Então é preciso pensar numa alternativa para ampliar o número de vagas nas penitenciárias.
Até porque a violência voltou a ocupar o topo das preocupações dos brasileiros.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Procurador do DF envia à PGR suspeitas sobre Jair Bolsonaro por improbidade e peculato Representação se baseia na suspeita de ex-assessora do presidente era 'funcionária fantasma'. Procuradora-geral da República vai analisar se pede abertura de inquérito para apurar. Por Mariana Oliveira, TV Globo  — Brasília O presidente Jair Bolsonaro — Foto: Isac Nóbrega/PR O procurador da República do Distrito Federal Carlos Henrique Martins Lima enviou à Procuradoria Geral da República representações que apontam suspeita do crime de peculato (desvio de dinheiro público) e de improbidade administrativa em relação ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL). A representação se baseia na suspeita de que Nathália Queiroz, ex-assessora parlamentar de Bolsonaro entre 2007 e 2016, período em que o presidente era deputado federal, tinha registro de frequência integral no gabinete da Câmara dos Deputados  enquanto trabalhava em horário comerc...
Atuação que não deixam dúvidas por que deveremos votar em Felix Mendonça para Deputado Federal. NÚMERO  1234 . Félix Mendonça Júnior Félix Mendonça: Governo Ciro terá como foco o desenvolvimento e combate às desigualdades sociais O deputado Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) vê com otimismo a pré-candidatura de Ciro Gomes à Presidência da República. A tendência, segundo ele, é de crescimento do ex-governador do Ceará. “Ciro é o nome mais preparado e, com certeza, a melhor opção entre todos os pré- candidatos. Com a campanha nas Leia mais Movimentos apoiam reivindicação de vaga na chapa de Rui Costa para o PDT na Bahia Neste final de semana, o cenário político baiano ganhou novos contornos após a declaração do presidente estadual do PDT, deputado federal Félix Mendonça Júnior, que reivindicou uma vaga para o partido na chapada majoritária do governador Rui Costa (PT) na eleição de 2018. Apesar de o parlamentar não ter citado Leia mais Câmara aprova, com...
Lula se frustra com mobilização em seu apoio após os primeiros dias na cadeia O ex-presidente acreditou que faria do local de sua prisão um espaço de resistência política Compartilhar Assine já! SEM JOGO DUPLO Um Lula 3 teria problemas com a direita e com a esquerda (Foto: Nelson Almeida/Afp) O ex-presidente  Lula  pode não estar deprimido, mas está frustrado. Em vários momentos, antes da prisão, ele disse a interlocutores que faria de seu confinamento um espaço de resistência política. Imaginou romarias de políticos nacionais e internacionais, ex-presidentes e ex-primeiros-ministros, representantes de entidades de Direitos Humanos e representantes de movimentos sociais. Agora, sua esperança é ser transferido para São Paulo, onde estão a maioria de seus filhos e as sedes de entidades como a CUT e o MTST.