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Agência Brasil
Mansueto Almeida12 de agosto de 2020 | 07:13

Baixas na economia criam encruzilhada para Paulo Guedes

ECONOMIA
A saída de mais dois membros importantes da equipe de Paulo Guedes não pegou de surpresa o setor privado brasileiro.
Segundo alguns empresários que conversaram com a reportagem, com a condição de não terem seus nomes revelados, a agenda liberal, um dos pilares do plano econômico do governo de Jair Bolsonaro, estaria sendo preterida e levando a debandada de pessoas que deixaram o setor privado justamente por acreditarem nessa essa agenda.
A pressão por um modelo mais populista estaria ganhado força por causa do aumento de popularidade do presidente após o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600. Entre os que defendem mais gastos estaria, em especial, a ala militar, que sugere mais obras.
Também chama a atenção dos empresários a postura do novo ministro da Comunicação, Fábio Faria. Ele tem participado de lives e dado declarações que tratam dos rumos econômicos do governo.
Para Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq (Associação Brasileira de Brinquedos), os recentes pedidos de demissão podem ser explicados pela demonstração de ineficiência do governo em avançar com mais agilidade na agenda liberal. “O Brasil não funciona como a gente pensa, funciona como é possível”, diz Costa. “Por que o Salim não conseguiu vender empresas? Porque toda hora tem alguém empatando um negócio —um juiz de primeira instância, o Ministério Público. E isso ocorre porque não há uma boa narrativa.”
Já José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria de Plástico), lamenta pelo que chamou de perdas do governo. “É uma pena sair. Esse pessoal do setor privado teve um tempo de aprendizado e vão sair justamente agora que estão capacitados. E é o momento que mais precisamos, no início do pós-covid.”
Há quem defenda, no entanto, que Paulo Guedes nunca perdeu força dentro do governo e estaria usando a saída de dois importantes membros para pressionar o governo e conseguir acelerar o envio e aprovação de reformas.
Entre os economistas, porém, a saída dos secretários Salim Mattar e Paulo Uebel, responsáveis respectivamente por privatizações e a reforma administrativa, mostram o ministro em uma encruzilhada.
Pressionado no fronte fiscal por demandas por aumento de gastos e sem conseguir avançar sua agenda de reformas, num momento em que o presidente Bolsonaro já está com a atenção voltada para as eleições de 2022, Guedes não consegue cumprir sua promessa liberal e colhe a frustração de sua equipe.
Também deixaram o governo recentemente Rubem Novaes (presidente do Banco do Brasil), Caio Megale (diretor de programas da Secretaria de Fazenda) e Mansueto Almeida (secretário do Tesouro Nacional). “A saída dos dois precisa ser vista em conjunto com as outras saídas recentes”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “A saída rápida e intensa de muitos secretários em pouco tempo é uma sinalização de que a situação da política econômica, tanto da parte fiscal, como com relação às reformas, não conseguiu avançar.”
Segundo Vale, isso revela a posição enfraquecida de Guedes diante da demanda por mais gastos vindas de um presidente focado nas eleições, de militares que querem reforça a despesa com Defesa e do centrão que cobra a fatura de seu apoio ao presidente.“A sinalização das saídas dos secretários é a de um ministro que está numa encruzilhada”, afirma.
Segundo ele, nesse mês a discussão do Orçamento será importante para avaliar o desenrolar desse impasse. “A preocupação é de que talvez o ministério da Economia não consiga entregar uma peça fiscal que pare em pé e, aí sim, os mercados vão começar a ficar bastante estressados com essa situação.”
Para Carlos Kawall, do ASA Bank, as novas baixas revelam frustrações distintas. No caso do secretário responsável pela reforma administrativa pesa mais a inação do governo, avalia o economista, já que o Congresso se mostra aberto à mudança. Já no caso das privatizações, a resistência dos parlamentares têm sido o entrave mais relevante, avalia.
“Se o secretário Uebel saiu por conta de insatisfação com a inação do governo na iniciativa política de enviar a reforma administrativa, isso preocupa”, diz Kawall. “É uma reforma que várias vezes foi anunciada que era iminente e não há nenhum motivo para que isso não ocorra, a não ser uma questão política eleitoral.”
Para José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, a saída dos secretários e a frustração da agenda liberal não causam surpresa. “É frustração para quem acreditou”, diz. “Aquela promessa de vender R$ 1 trilhão, de fazer reforma administrativa, de flexibilizar o gasto, não deu. Quem promete aquilo não está bem acostumado com o assunto.”

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