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Bancada evangélica promete a Bolsonaro apoio para criação da Aliança

BRASIL
Uma aliança evangélica pela Aliança pelo Brasil. “Porque só amém não basta, tem que ter assinatura também”, brinca um pastor durante a primeira conferência nacional da bancada evangélica, promovida nesta quarta-feira (18) numa casa de eventos em Brasília.
Principal orador do dia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) arranca da plateia a promessa de empenho para coletar os 491.967 nomes necessários para a fundação da nova legenda bolsonarista.
“Lógico que a Aliança poderá contar conosco”, disse à Folha o presidente do bloco religioso, deputado Silas Câmara (Republicanos-AM).
Ele afirmou que não chegará a tanto a ponto de aderir ao recém-lançado chamado para que parlamentares abandonem suas siglas e se filiem ao projeto partidário. Mas evangélicos, segundo Câmara, estão mobilizados para atuar “na base, nas igrejas” atrás das assinaturas.
Não é que “um pastor vai chegar e falar ‘irmãos, se inscrevam num partido'”, disse o pastor Marcos Galdino, da Assembleia de Deus paulista. “Mas vemos claramente que o evangélico apoiará essa causa. Eu, como cidadão, apoio.”
O próprio presidente deixa claro: não acredita que dará tempo de colocar a Aliança de pé para o pleito municipal de 2020.
Seu discurso é polvilhado por frases de efeito que extraem um ou outro “glória a Deus” do público.
“Quando acaba a saliva, entra a pólvora”, disparou, ao rememorar dos embates internacionais que travou no primeiro ano de mandato, como aquele com o presidente francês, Emmanuel Macron.
Sobre seu temperamento, o mandatário parodiou um ex-técnico da seleção brasileira. “Vou dar uma de Zagallo: vão ter que me engolir!”
E calma, gente. “Sou Messias mas não tem nada a ver, meu nome é por acaso Messias”, afirmou Jair Messias Bolsonaro.
Ao lembrar do decreto que assinou para liberar a plantação de cana-de-açúcar na Amazônia, achincalha ambientalistas preocupados com danos irreversíveis provocados pelo cultivo, imprensa (“Vão dizer que transformei [a floresta] num grande canavial”) e até seu maior rival político.
Capaz de Lula até querer visitar a região, já que “canavial tem duplo sentido, cana é cana”, diz. Uma troça que se aplica ao tempo na prisão do ex-presidente e à sua afeição por uma boa cachaça.
Ladeado por dois de seus soldados ideológicos, os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Bolsonaro elencou tópicos que seriam caros a ele e a seu público evangélico. “Questões de aborto, drogas, liberdade religiosa… mais alguma coisa?”
Acrescentou, na sequência, o item por pouco não esquecido. “Família!”
O “cast” da conferência, que deve terminar com jantar e uma “santa ceia”, mostra a força do bloco religioso, que tem pouco mais de cem parlamentares —cerca de 20% da Câmara: também bateu ponto no evento o ministro da Justiça, Sergio Moro.
“Entendo que Estado é laico. Mas isso não significa que homem público, mulher pública, precisa se despir dos seus valores cristãos para atuar na vida pública”, disse o ex-juiz da Lava Jato.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), passou no início da tarde para agradecer o respaldo da bancada em pautas econômicas. Nos bastidores, há desconforto com a agenda moral ter sido até aqui escanteada em votações no Congresso.
Publicamente, o coro é uníssono: tudo bem deixar os “temas família” para um segundo momento, uma vez que ter um conservador como Bolsonaro no comando já faz com que os evangélicos deixem de jogar na defesa o tempo todo. É como funcionava quando o PT estava no poder, dizem.
Na sua vez de discursar, Damares criticou o ataque de traficantes evangelizados a credos afrobrasileiros. Respeita a fé alheia, mas de uma coisa está certa: “Um dia essas religiões vão estar todas cultuando o Senhor”.
Ernesto fustigou uma “elite cultural e intelectual” da qual, “para fazer parte, parece ser necessário desprezar a fé cristã”.
O ministro, católico como o presidente, acena aos amigos evangélicos. “A possibilidade de glorificar a Deus no palácio presidencial foi um momento de libertação.”
Resgatou o culto da véspera realizado no Planalto, em que Bolsonaro e a primeira-dama Michelle oraram ao lado de Cristiane e Renato Cardoso, filha e genro do bispo Edir Macedo.
Na manhã desta quarta, deputados e líderes evangélicos se apertaram sob três toldos num terreno no Eixo Monumental da capital brasileira.
Ali ficará o Museu da Bíblia, um prédio no formato do livro sagrado, com projeto de Oscar Niemeyer e custo público. Silas Câmara fala em R$ 20 milhões iniciais da União. Outros milhões viriam em verba de emendas parlamentares no ano que vem.
A cerimônia teve sua rodada de falas e orações. “A Bíblia é mais atual do que o jornal que vai circular amanhã. Graças a Deus por isso”, diz o bispo Oídes José do Carmo, que representou Manoel Ferreira, líder de uma das alas mais poderosas da Assembleia de Deus, o Ministério Madureira.
O tempo todo, o deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), que se diz ex-gay, permaneceu com uma cópia das Escrituras erguida para o alto.
“Só serve bancada se for pra evangelizar o presidente”, ele afirma à reportagem. “Se for só pra bajular, ‘ai, ai’ pra tudo o que ele faz, não serve.”
Isidório é das raras vozes a criticar abertamente ao menos um ponto de Bolsonaro. É contra a política pró-armamento patrocinada por ele, diz.
“A arma está totalmente fora de sintonia com o Evangelho. Todo homem de Deus precisa chamar o presidente pro lado de Cristo. Deus disse amai-vos, não armar-vos.”

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