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O alerta de Obama sobre sociedades desiguais e o desencanto com a política

Ex-presidente dos EUA apelou para redução da distância entre ricos e pobres e defendeu a mobilização de cidadãos em suas comunidades



Uma sociedade não funciona bem e uma democracia se torna disfuncional quando cidadãos sentem que o sistema é viciado e que alguns poucos têm acesso a privilégios. Esse foi um dos recados de Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, em palestra em São Paulo nesta quinta-feira (5). Ele lembrou que vivemos o período mais próspero e seguro da história da humanidade, mas afirmou que considera o futuro próximo, talvez os próximos dez anos, um período especialmente desafiador. Mesmo com crescimento econômico, democracias podem ser obrigadas a enfrentar um cenário de salários estagnados, desemprego alto, polarização, nacionalismo exacerbado e descrença em eleições e políticos. Para Obama, “um mundo em que só 1% [da população] controla a riqueza não terá estabilidade política” nem crescimento econômico duradouro.
Sem citar diretamente o Brasil, Obama afirmou que as nações precisam desenvolver sistemas tributários justos e garantir sistemas previdenciários sólidos. Em um cenário de hostilidade à globalização e de ascensão do populismo e da xenofobia, Obama reforçou a importância da democracia, que, em sua definição, “é a melhor forma de governo, mas é difícil e exige trabalho e engajamento”. Sem dar soluções fáceis, ele defendeu que políticos velhos abram espaço para a participação de jovens no debate público. “A política sofre quando fica sempre com os mesmos líderes e não surge sangue novo.”  
O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, duarante participação  no Fórum Cidadão Global (Foto:  Silvia Costanti/Valor / Agência O Globo)
Obama ganhou aplausos quando explicitou sua visão de inclusão. Ao tratar de educação e investimento em crianças, pediu um momento a mais para completar que as mesmas oportunidades e atenção têm de ser dadas a crianças negras e brancas, a meninas e meninos. "Um país que não dá educação igual a mulheres e homens não será um país bem-sucedido", afirmou. Na visão do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, questões de gênero e raça têm efeito também econômico.
Entre os participantes do evento estava a economista Maria Silvia Bastos Marques, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ela enalteceu Obama e definiu-o como exemplar. Sobre o desencantamento com a política, Maria Silvia disse esperar que Obama não seja o último líder inspirador. “Há jovens engajados no Brasil, que, futuramente, mudarão o cenário”, afirmou. Ela duvida, porém, que essas novidades se revelem já em 2018.
Também na plateia, Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, classificou Obama como  "um sucesso extraordinário, um homem admirável no mundo inteiro, um diplomata”. Também fã assumido, o vereador paulistano Eduardo Suplicy (PT-SP) circulava pelo teatro com uma carta em que apresentava a Obama sua famigerada proposta de renda básica da cidadania – que prevê uma quantidade mínima de recursos para cidadãos gastarem com serviços como saúde e educação.
Obama não é unanimidade: Flávio Rocha, presidente da Riachuelo, definiu o ex-presidente como o “político mais à esquerda que os EUA já tiveram” e acredita que em seus dois mandatos o ambiente de negócios americano tenha se degradado – embora Obama tenha assumido o cargo durante a maior crise econômica em décadas e tenha saído dele deixando um país em fase de crescimento e geração de emprego. Também compareceram a atriz Taís Araújo, a jornalista Maju Coutinho, o apresentador Luciano Huck, o ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário, a diretora-presidente da Pandora no Brasil, Rachel Maia, e a ex-consulesa da França em São Paulo Alexandra Baldeh Loras.
Além da palestra, Obama teve um encontro com 11 jovens empreendedores, com os quais discutiu maneiras de potencializar seus projetos sociais e empresas. A formação de jovens líderes é uma das missões da Fundação Obama, que terá uma sede no parque sul da cidade de Chicago. "Nós achamos que o Brasil será um componente-chave desse esforço. É um país importante com uma população dinâmica, onde as pessoas discutem questões que são relevantes para Obama", afirmou Bernadette Meehan, diretora executiva de programas internacionais, ao Valor Econômico. De acordo com o jornal, depois do Brasil, Obama seguirá para a Argentina, onde não terá encontros necessariamente ligados a sua fundação. Em São Paulo, Obama foi o principal palestrante do fórum Cidadão global, promovido pelo jornal Valor Econômico, editado pelo Grupo Globo, que também publica ÉPOCA.

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