Como agia a quadrilha que fraudou o Enem
Criminosos cobravam entre 150 e 180 mil, a depender da universidade que o candidato pretendia ingressar

Candidata verifica cartão de inscrição, antes da abertura dos portões para o primeiro dia das provas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), em São Paulo (SP) - VEJA.com)
Reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, acompanhou policiais na Operação Embuste e revelou a sofisticação do esquema montado por uma quadrilha especializada em fraudar concursos públicos. Membros do grupo – entre eles, professores e alunos veteranos, chamados de pilotos – faziam a prova rapidamente e saíam no tempo mínimo, com as respostas anotadas. Depois, de um hotel, eles transmitiam o gabarito para candidatos do exame em várias cidades do país. As alternativas corretas eram passadas por celular para receptores do tamanho de um cartão de crédito – com um chip semelhante a de celulares, que os candidatos grudavam no peito, e o áudio era ouvido por meio de pontos minúsculos no ouvido.
De acordo com o delegado da PF, Marcelo Freitas, ouvido pelo programa “a quadrilha cobrava entre 150 e 180 mil, a depender da universidade que o candidato pretendia ingressar”. Os membros da quadrilha já teriam fraudado outros dois concursos realizados neste ano: vestibulares na cidade de Mineiros, em Goiás, e Vitória da Conquista, na Bahia.
A reportagem do Fantástico mostra também como os criminosos testavam o esquema com os candidatos antes do início da prova. Um dos ‘pilotos’ em contato de áudio com uma estudante pergunta se ela está ouvindo corretamente o que ele diz: “Sofia, está me escutando dá duas tosses aí por favor”. E a candidata que já estava dentro da sala pronta para fazer a prova dá duas tossidas. O teste continua: “Correto. Vou falar cinco palavras: casa, carro, tatu, prédio e cachorro. Entendeu? Dá uma tossida”. E a candidata tosse uma vez. A tosse era a forma de comunicação do candidato com o piloto. “Se ele tossia uma vez significava que ele tinha entendido a alternativa correta da questão”, explicou o delegado. “E se tossia duas, não tinha entendido, e o interlocutor repetia a resposta.”
Essa foi a primeira vez que os policiais conseguiram captar o esquema de comunicação dos candidatos com os emissores de gabarito – por meio da tosse. Com a comunicação de emissão e retorno os criminosos garantem a precisão da fraude. Para a polícia, o esquema de segurança nos locais de prova falhou. “Nós verificamos que em muitos locais o pórtico de detector de metais não estava sendo utilizado ou estava usado de maneira indevida”, disse Freitas.A Superintendência da Polícia Federal, no Maranhão, deflagrou uma outra operação, batizada de “Jogo Limpo”. Nesta, foram cumpridos 22 mandados de busca e apreensão em sete estados – Maranhão, Piauí, Ceará, Paraíba, Tocantins, Amapá e Pará – com o objetivo de desmantelar uma outra quadrilha que também comercializava gabaritos.
Até um secretário
Um secretário municipal de Saúde do Ceará está entre os presos no Estado. O homem, que não teve o nome divulgado pela Polícia Federal, fazia prova de Linguagens, Redação e Matemática em uma universidade na região central de Fortaleza, com ponto de escuta. Os policiais federais flagraram o fraudador com o equipamento espalhado pelo corpo, ligando a fones de ouvido.

Comentários
Postar um comentário